2013.11.29 Apresentação Galeano

Eduardo Galeano

A literatura é uma das várias formas de expressão do conhecimento construídas pela humanidade. Dentre seus inúmeros gêneros, que ora se aproximam ora se afastam do plausível para escrever e reescrever realidades, encontramos os textos de Eduardo Galeano, bastante difíceis de serem classificados.

Para hoje, escolhemos um texto do livro Dias e noites de amor e de guerra para compartilharmos com vocês. Nessa publicação, Galeano escreve sobre histórias vividas em épocas de violência e de intolerância étnica e política durante os “anos de chumbo” da América Latina. São histórias de exploração, opressão, repressão e, sobretudo, de resistência. Resistência de homens comuns, de sujeitos capazes de defender a vida e a alegria em tempos de guerra.

E nesse texto, especificamente, encontramos uma espécie de homenagem aos que sobreviveram ao terror das ditaduras e que resistiram e resistem com suas vidas em punho. Sintam-se a vontade para refletir e para se emocionar!

Livro: Dias e noite de amor e de guerra

Livro: Dias e noite de amor e de guerra

 Guerra da rua, guerra da alma

Persigo a voz inimiga que me ditou a ordem de estar triste. Às vezes, acontece de eu sentir que a alegria é um delito de alta traição, e que sou culpado do privilégio de continuar vivo e livre.

Então me faz bem recordar o que disse o cacique Huillca, no Peru, falando ante as ruínas: “aqui chegaram. Romperam até as pedras. Queriam fazer-nos desaparecer. Mas não conseguiram, porque estamos vivos e isso é o principal”. E penso que Huillca tinha razão. Estar vivos: uma pequena vitória. Estar vivos, ou seja: capazes de alegria, apesar dos adeuses, e dos crimes, para que o desterro seja a testemunha de outro país possível.

A pátria, tarefa por fazer, não vamos levantá-la com ladrilhos de merda. Serviríamos para alguma coisa, na hora do regresso, se voltássemos quebrados?

Requer mais coragem a alegria que a pena. À pena, afinal de contas, estamos acostumados.

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