Carlos, Estagiário do APERS

Carlos, Estagiário do APERS

 Foi uma das primeiras oficinas que fiz e em meu grupo ficaram quatro meninas e um menino, todos do terceiro ano do ensino médio. O assunto inicial foi estarem em preparação para o vestibular, estavam curiosos por eu ter feito o anterior. Uma das meninas mencionou que o curso de História seria uma de suas opções. Mas o que me chamou a atenção e fez desta uma oficina diferente, foi o nível de conhecimento deste grupo sobre história contemporânea, tanto brasileira quanto mundial. O aprofundamento no tema ditadura exige este conhecimento. Dali pra frente o assunto fluiu abertamente. Foi possível falar em guerra fira, em ditaduras sul-americanas, em Operação Condor, em Legalidade, discorrer sobre contextos da ditadura civil e militar brasileira, sempre com intervenções oportunas e interessadas dos integrantes do grupo. Fazíamos a oficina sobre o material de Eloy Martins e sua presença opositora em dois momentos ditatoriais de nossa história propiciou bons momentos de trocas de conhecimentos. Eloy conheceu e nos apresentou os porões do estado novo e da ditadura civil e militar. O assunto esteve o tempo todo instigante.

Desde que se abriu diante de mim a possibilidade de trabalhar com jovens dos ensinos fundamental e médio, abriu-se também a possibilidade de melhorar a desenvoltura com os mais jovens. Os pré vestibulandos me passam a sensação de momentos mais complicados, de maior intensidade, de maior dificuldade para este professor em primeiras viagens. Uma oficina de quatro integrantes é bem diferente de uma sala de aula com mais de trinta, soma-se a isso o convívio para o ano todo na contrapartida do encontro único da oficina. Talvez sobre essas características que vou me defrontar em sala de aula é que esteja o impulso de me remeter pro preferencial ensino fundamental. Ocorre que este primeiro contato com o ensino médio, com o terceiro ano, com estudantes que falam e ouvem e acrescentam convictos seus pontos de vista, foi de certa forma revelador, instigante pela abrangência que se fez possível na discussão. Já não tenho mais tanta certeza que vou dar preferência às aulas no ensino fundamental, este grupinho esclarecido do Colégio Godoy me faz repensar isto a todo momento.

E a melhor parte é ver o quanto são interessados, o quanto se surpreendem e o quanto ficam indignados com as desumanidades da tortura. Em instantes estão todos admirando aquelas pessoas pela coragem e obstinação, por entregarem a própria vida por um ideal, e a ligação dos tempos na referência às manifestações de maio deste ano é oportunizada. A história está acontecendo, a história nunca para de acontecer, e os estudantes percebem e se empolgam. E eu também. Tantos quantos estes jovens pré vestibulandos do Godoy, outras turmas, outras escolas, gratas surpresas, gratos convívios, que a cada oficina se renovam. Entendemos juntos que passado e presente tem ligação direta, que a memória nos enriquece e o conhecimento nos fortalece, que este passado recente e tão presente é digno de toda repulsa e de constante lembrança. Que venham 2014 e suas tantas oficinas, que venham desvendar nossos tesouros e nossas resistências.

Carlos Raimundo Pereira

Licenciando em História na UFRGS

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