Até a semana anterior, além de diversas dicas de leitura, músicas e vídeos, abordamos em nossas postagens discussões teóricas e conceituais, e ações atuais relacionadas à ditadura civil militar no Brasil, demonstrando o quanto esse período ainda deixa marcas em nossa sociedade, o quanto o tema está em voga, e o quanto deve ser debatido para construirmos uma sociedade mais justa e democrática. A partir de hoje passamos a compartilhar com você postagens que nos aproximarão dessa história de forma cronológica, buscando contribuir para o conhecimento do processo histórico que se desdobrou desde a década de 1960 e que em diversos aspectos se estende até os dias de hoje, sempre tentando indicar outras fontes de informação a respeito. Pensando nessa perspectiva, dedicamos esse texto a seguinte reflexão: já que os processos históricos nunca estão isolados, como a análise da conjuntura nacional e mundial ajuda a entender as motivações para o golpe civil militar em 1964? O que ocorria no Brasil e no mundo naquele período?

O golpe no Brasil está amplamente relacionado ao contexto da Guerra Fria e da bipolarização do mundo entre Guerra Fria Mísseisdois projetos de sociedade antagônicos: o capitalismo e o socialismo. Podemos afirmar que as disputas político ideológicas em torno desses dois projetos vinham se construindo há pelo menos um século, tornando-se mais efetivas a partir da Revolução Russa de 1917, quando um grande território unificou-se na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que passou a liderar o bloco de países socialista, em oposição ao bloco de países capitalistas liderado pelos Estados Unidos (EUA). Ambos os lados passaram a disputar países para sua esfera de influência política, econômica e cultural, em uma disputa que não poderia ter mediações, já que os modelos de sociedade defendidos por cada um dos blocos eram estruturalmente diferentes. Para os capitalistas a organização da sociedade e da produção deveria estar pautada na propriedade privada e na livre regulação do mercado, em que cada indivíduo pudesse adquirir bens e concorrer em busca de lucro e de qualidade de vida, de acordo com suas possibilidades. Já para os socialistas soviéticos, o Estado deveria ser o proprietário dos meios de produção, como fábricas e terras, e regular o sistema financeiro e de crédito, tendo como papel fundamental a distribuição igualitária de riquezas entre os cidadãos.

Charge MafaldaPorém, foi após o final da II Guerra Mundial que a divisão do mundo em blocos tornou-se premente, seja pela demonstração de poder bélico levada a cabo pelos EUA com a explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945, seja pelo lançamento oficial, em 1947, da Doutrina Truman no Congresso norte-americano – um forte plano de combate à expansão do comunismo no mundo – ou ainda pela divisão da Alemanha, em 1949, passando a ter um lado alinhado aos socialistas, chamada Alemanha Oriental, e outro aos capitalistas, Alemanha Ocidental. A partir do final da década de 1940 o mundo passou a viver em tensão constante, com o perigo de uma nova guerra mundial, que ao mesmo tempo seria muito improvável, já que ambas as potências em disputa passaram a dominar a tecnologia nuclear, e tinham bombas capazes de eliminar a vida humana na Terra. Por isso o conflito ficou conhecido como “Guerra Fria”, já que era uma guerra que não se travava entre trincheiras e explosivos, mas especialmente no campo da propaganda ideológica, da pressão econômica e influência cultural. Entretanto, a inviabilidade de uma guerra mundial não excluiu a existência de conflitos armados. Ao contrário, as dis


Guerra VietnãDesde que os EUA se constituíram enquanto grande potência mundial, no limiar do século XX, realizaram esforços
 para manter a América Latina sob sua influência e controle. Sendo o Brasil o maior país da região, com grande potencial econômico e muitas riquezas naturais, obviamente sofreria pressões para manter-se alinhado ao bloco capitalista. A Revolução Cubana de 1959, que transformou a ilha em mais um país socialista vinculado à URSS, estimulou intensamente o medo do “perigo vermelho” na América, fazendo com que as intervenções norte-americanas e a doutrinação anticomunista fosse potencializada. E é nesse quadro internacional que muitas lutas populares tomaram fôlego no Brasil do início dos anos 1960, com a organização dos trabalhadores do campo em Ligas Camponesas, com maior participação popular em sindicatos e outros espaços de organização política, com o crescimento do Partido Trabalhista (PTB) e acirramento das lutas por reformas sociais que favorecessem o povo pobre.putas entre os blocos fomentaram diversas 
guerras e crises locais, como a Guerra da Indochina, a Guerra do Vietnã e a Guerra da Coreia.

Conhecendo a conjuntura nacional e internacional daquele contexto torna-América Latinase mais fácil compreender os diversos fatores que levaram ao golpe civil militar naquele ano, e quais interesses estavam em jogo. Torna-se mais evidente, por exemplo, a conexão entre os golpes nos demais países latino-americanos, em especial no Cone Sul, realizados em sequência após o golpe brasileiro, com premissas e interesses parecidos. Explicita-se também o caráter econômico do golpe, realizado para defender o status quo e evitar mudanças mais profundas que pudesses interferir nos interesses dos grupos dominantes em nossa sociedade.

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