Em meio às turbulências vividas na primeira metade dos anos 1960, tinha-se a impressão de que as tendências de esquerda estavam se fortalecendo na área cultural. O Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) encenava peças de teatro que faziam agitação e propaganda em favor da lut apelas reformas de base e satirizavam o “imperialismo” e seus “aliados internos”. (KONDER, L. História das ideias socialistas no Brasil).

Manifesto do Centro Popular de Cultura

Manifesto do Centro Popular de Cultura

Além das movimentações políticas, econômicas e sociais que envolveram o país e o mundo na segunda metade do século XX, como acompanhamos nas postagens anteriores, também de muita arte viveu o Brasil nos anos 60. No mesmo período de intensas mobilizações em torno da Legalidade e da garantia da posse do presidente João Goulart, ao mesmo tempo em que grupos sociais se organizavam para reivindicar reformas estruturais no país, artistas e intelectuais da esquerda construíram o Centro Popular de Cultura, com o objetivo de criar e de divulgar uma “arte popular revolucionária”.

 Associada à União Nacional dos estudantes – UNE, os CPCs surgiram na cidade do Rio de Janeiro, em 1961, e posteriormente foram se espalhando para outras cidades do país. Reuniram artistas de diversas áreas – como teatro, música, cinema, literatura – que acreditavam no caráter coletivo e didático da arte e no engajamento social e político dos artistas.

Centro Popular de Cultura e o Teatro

Centro Popular de Cultura e o Teatro

Segundo Kornis, o núcleo formador do Centro foi constituído por Odulvado Viana Filho, pelo cineasta Leon Hirszman e pelo sociólogo Carlos Estevam Martins. Os princípios do projeto foram expostos no “Ante projeto do Manifesto do Centro Popular de Cultura”, redigido e divulgado no ano de 1962. Apesar de não termos encontrado disponível o manifesto na íntegra, as referências utilizadas para a construção dessa postagem nos remontam a uma compreensão de que a arte do povo seria “de ingênua consciência”, sem outra função senão “a de satisfazer as necessidades lúdicas e de ornamento”. Segundo os integrantes, o CPC, nesse caso, “pretendia tirá-las da alienação e da submissão”, partindo da leitura de que as manifestações culturais deveriam ser compreendidas “sob a luz de suas relações com a base material” e nunca como “uma ilha incomunicável e independente dos processos materiais. Em outras palavras, defendiam que a “arte só irá onde o povo consiga acompanhá-la, entendê-la e servir-se dela”.

Centro Popular de Cultura

(LP) O Povo Canta

 O CPC travava uma importante batalha na qual acretiva estar ao lado do povo a arte comprometida em debater os problemas reais das gentes reais do país. Para o grupo, o diálogo com o cotidiano, com as culturas populares, com as lutas do povo e suas múltiplas manifestações deveria ser o ponto de partida e o de chegada das criações artísticas – para eles, a chegada estaria caracterizada pela transformação da inicial “ingênua consciência”, dai o caráter engajado da concepção no combate à opressão e à exploração. No período de sua breve existência, entre o início dos anos 60 e o Golpe Militar em 1964, o CPC promoveu a encenação de peças de teatro em portas de fábricas, nos sindicatos e nas ruas de várias cidades e em áreas rurais do Brasil.

 Segundo Kornis, O teatro da UNE, com a apresentação da peça Os Azeredos mais os Benevides, de Oduvaldo Viana Filho, foi inaugurado às vésperas da derrubada do presidente João Goulartpelos militares, em 31 de março de 1964. Nos primeiros dias de abril, a sede da UNE foi incendiada e todos os CPCs foram fechados.

Música e o CPC

(LP) O Povo Canta

No entanto, apesar do fechamento do CPC, da prisão ou exílio de artistas e intelectuais ligados ao Centro, não há dúvidas de que suas propostas influenciaram as diversas manifestações artísticas das décadas posteriores. A possibilidade de vincular a arte às questões políticas vividas por nossa sociedade nos diversos períodos históricos posteriores, contribui para a valorização da cultura popular brasileira nas suas diferentes produções.

Curiosidades!!!

Entre dezembro de 1961 e dezembro de 1962, o CPC produz as peças Eles não usam black-tie, de Guarnieri, e A Vez da Recusa, de Carlos Estevam; o filme Cinco Vezes Favela, composto por cinco episódios, com a direção de Joaquim Pedro de Andrade, de Marcos Faria, Cacá Diegues, Miguel Borges e Leon Hirszman. Publicou a coleção Cadernos do Povo e a série Violão de Rua, das quais participam Moacir Félix, Geir Campos e Ferreira Gullar.

Promoveu também a venda de livros a preços populares e foi pioneiro na realização de filmes auto-financiados; a edição da coleção Cadernos Brasileiros e a Revista Civilização Brasileira, editadas por Ênio Silveira, e a História Nova, organizada por Nelson Werneck Sodré; cursos de teatro, cinema, artes visuais, filosofia e a UNE-Volante, um grupo itinerante que realizava excursões pelas capitais do país para contatos com as bases universitárias, operárias e camponesas; oficinas de literatura de cordel que contaram com a participação de Félix de Athayde e de Ferreira Gullar; o projeto do teatro de rua, de Carlos Vereza e João das Neves, assim como o teatro camponês, de Joel Barcelos, que pretendiam levar a arte ao povo, nos locais de trabalho, moradia e lazer; feiras de livros acompanhadas de shows de música, para os quais convidaram os “sambistas do morro”, então desconhecidos do público, como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Cartola, e Vinícius de Morais, autor do Hino da UNE; aulas de teatro, com a adesão Paulo Francis; e, por fim, atividades ligadas à artes plásticas, com Júlio Vieira, Eurico Abreu e Carlos Scliar.

Referência:

– Centro Popular de Cultura – Wikipedia.

– Mônica Almeida Kornis, Centro Popular de Cultura. Confira na integra o texto publicado no portal da Fundação Getúlio Vargas.

– KONDER, L. História das ideias socialistas no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2003.

Para saber mais…

Livro Manoel T. Berlink

Livro Manoel T. Berlink

– Livro de l T. Berlinck, Centro Popular de Cultura da UNE, disponível em PDF.

– Carla Michele Ramos. O papel dos artistas e intelectuais do Centro Popular de Cultura (1961-1964) na construção de uma nova sociedade.

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