2014. Ano dos 50 anos do golpe civil-militar de 1964. No final deste mês muitas pessoas, organizações, estudantes, educadores, instituições, estarão rememorando e (des)comemorando uma data sombria, que marcou o início do período de 21 anos de ditadura em nosso país. Com certeza precisamos debater muito o tema, para informar e formar tanto aqueles que cresceram durante a ditadura e por ela foram “moldados” através das escolas, da mídia, da repressão, das propagandas institucionais e de políticas psicossociais que objetivavam paralisar e amedrontar nossa sociedade, quanto os mais jovens, que são filhos de uma geração amordaçada, que nasceram e viveram em meio às mensagens individualistas do neoliberalismo, e que muito pouco ou quase nada ouviram falar de golpe, ditadura, censura, mortos ou desaparecimentos, afinal, em nossa transição política optou-se por calar.

MIlitares nas ruasA partir das discussões que temos feito em nossas postagens, você deve ter acompanhado que o golpe enquanto fato histórico não representa uma momento isolado na trajetória brasileira. O golpe não ocorreu apenas pelo interesse dos militares – isolados do restante da sociedade – em ocupar o poder e combater o “perigo comunista”, assim como eles não foram conduzidos ao poder nos braços da maioria do povo, como algumas vezes os setores militares reacionários querem fazer parecer. O golpe no Brasil estava conectado com a realidade da Guerra Fria, com a busca de hegemonia na América Latina por parte do Estados Unidos, que comandava o bloco capitalista, e com os interesses da elite econômica e política do Brasil, que pretendia frear o processo de organização crescente dos trabalhadores no campo e nas cidades, que desde o começo dos anos de 1960 lutavam mais e mais por seus direitos e por uma sociedade mais equânime. Neste sentido, certamente os militares foram apoiados por parte do empresariado, da imprensa, da classe média, por latifundiários e de setores conservadores da Igreja.

GOLPE Ultima HoraPara compreender melhor os fatos transcorridos entre a madrugada de 31 de março de 1964 – quando militares marcharam em Minas Gerais e no Rio de Janeiro contra o governo de Jango – e os meses que se passaram logo após o golpe, com repressão e combate ao “inimigo interno” comunista, intervenções no parlamento, em sindicatos, partidos políticos, organizações estudantis, e com a invenção de um arcabouço legal imposto pelos militares para prestar-lhes falsa legitimidade no poder, gostaríamos de indicar a leitura do texto “O golpe de 1964 e a instauraçao do regime militar“, do site do CPDOC /Fundação Getúlio Vargas.

Com o objetivo de elucidar melhor o contexto de golpe e o interesse dos Estados Unidos na questão, gostaríamos de destacar também a existência de gravações feitaspor escutas instaladas na Casa Branca pelo próprio presidente John Kennedy, que comprovam que EUA planejavam uma intervenção militar no Brasil. Essas gravações foram liberadas pela John F. Kennedy Presidential Library, e agora podem ser amplamente acessadas através do site de Elio Gaspari, no qual o jornalista disponibiliza um acervo com cerca de 15 mil documentos que serviram de base para a edição e a reedição de seus livros sobre a ditadura militar no Brasil.

Jango e Kennedy

João Goulart e John Kennedy

Em 07 de outubro de 1963 Kennedy se reunia com Lincon Gordon na Casa Branca para tratar da “ameaça comunista” no Vietnã e nos países da América. Gordon exerceu a função de embaixador dos Estados Unidos no Brasil de 1961 a 1966, articulando forte oposição ao presidente João Goulart. Kennedy temia que as Reformas de Base defendidas pelo governo Jango fossem implementadas, aumentando a base esquerdista do governo e aprofundando as lutas sociais no país, que poderiam conduzir a uma saída socialista. Nesse dia, o embaixador já afirmava a Kennedy que o golpe militar poderia ser uma opção para resolver a crise política brasileira, com o que o presidente concordava. Para acessar a gravação, clique aqui.

O dia que durou 21 anosO documentário “O dia que durou 21 anos”, de Camilo Tavares e Flávio Tavares lançado em 2013, também é uma excelente fonte de informações a respeito do golpe de 1964 e seu contexto. Produzido com documentos secretos e gravações originais da época, mostra a relação dos EUA com o golpe, sua articulação em apoio aos militares brasileiros, e fornece um rico panorama desde a crise política estabelecida com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, até o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969, cinco anos após o golpe. Vale a pena conferir!

Nas próximas semanas muitas atividades serão realizadas em todo o Brasil relacionadas aos aniversário de 50 anos do golpe e suas consequências. Seguiremos discutindo sobre a temática e, na medida do possível, divulgando conteúdos e oportunidades de debates. Acreditamos que somente assim – com muita troca de informações e reflexão crítica – conseguiremos dar fim a muitas heranças da ditadura em nosso país, como o entulho autoritário e à defasagem na educação, na participação política e no exercício da cidadania.

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