Publicado pela primeira vez em 1987, Combate nas Trevas – A Esquerda Brasileira: das ilusões perdidas a luta armada, escrito por Jacob Gorender, é um dos livros mais lidos e mais conhecidos sobre a temática da Luta Armada no período da Ditadura no Brasil. Gorender, que é historiador, também foi militante do Partido Comunista Brasileiro e fundador do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Esse último, foi uma organização de luta armada. Nesse sentido, além de uma análise histórica, o autor publica no livro muitas memórias daqueles anos, da atuação do PCBR e de várias outras organizações, como a ALN e a VPR, que optaram pela luta armada como forma de resistência.

 Livro Combate nas Trevas

Livro Combate nas Trevas

No capítulo intitulado Imersão na Luta Armada, o autor discute as possibilidades de resistência a partir do ato institucional número cinco (AI-5). Segundo o autor, nesse momento as lutas de massas estavam encerradas e restou, da clandestinidade dos militantes de esquerda, a única resposta possível, o combate pelas armas. Para ele, as vanguardas revolucionárias não poderiam ser partidos políticos com braços armados, visto que toda possibilidade de lutas institucionais estavam esgotadas, mas sim organizações de corpo inteiro militarizadas e voltadas para as tarefas de luta armada.

Nesse momento de virada de muitas organizações para a ação armada, também houve uma virada do estado, no sentido de profissionalizar ainda mais a repressão. Segundo Jacob, o súbito aumento da escalada da luta armada pôs à mostra a incapacidade do aparelho policial no enfrentamento desse novo tipo de organização.

Reportagem de época; DOI-CODI

Reportagem de época; DOI-CODI

Foi desse recrudescimento das instituições que surgiu a OBAN (Operação Bandeirantes) que mais tarde, foi incorporada institucionalmente pelo Exército, recebendo o nome de DOI/CODI (destacamento de Operações de Informação/Centro de Operações de Defesa Interna do II Exército). Essa instituição, se transformou em um dos maiores e mais sangrentos centros de tortura do país. Desde Gorender, quando o major do Exército Carlos Alberto Brilhantes ustra, assumiu o comando do DOI/CODI, as operações de investigação, captura, interrogatório, análise de interrogatórios, fichário, cruzamento de informação foram organizadas de foram meticulosa: “sob suas ordens, a tortura deixou de ser arbitrária e caótica e se tornou uma prática orientada e metódica, friamente executada”. Além de São Paulo, os DOI/CODI passaram a ser instituições oficiais no Rio, Recife, Brasília, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza e Belém.

Já os militantes, além de se empenharem na luta armada, passaram a ter que defender de uma repressão maios coordenada, equipada e informada. Além disso, conforme o autor, enfrentavam dois outros grandes problemas além da repressão policial. O primeiro deles dizia respeito ao sustento de um número cada vez maior de militantes que tiveram de passar para a clandestinidade para conseguir continuar atuando na luta. Gorender afirma que as quantias arrecadadas nos assaltos a bancos (também chamado de expropriações ou ações confiscatórias) decrescia, devido aos cuidados que a agências passaram a tomar, não deixando muito dinheiro a disposição nos caixas e nos cofres das agências. O segundo, dizia respeito a imagem que as organizações estavam tomando diante da população. Segundo o autor, durante as ações, repetiam-se “repetiam-se os episódios em que humildes vigilantes de bancos e soldados, que resistiam à tomada suas armas, saíam feridos ou mortos no choques com guerrilheiros”. Esses fatos, tomavam os noticiários e fomentavam a ideia de terrorista vendida pela ditadura à população.

Parece que Gorender ao mesmo tempo em que justifica a decisão por pegar em armas devido ao fechamento total da ditadura, também realiza uma autocrítica, no sentido de perceber, em retrospectiva, que os dirigentes revolucionários se afundaram “no engano fatal de que a justeza de sua causa, a audácia dos seus feitos e a difusão de suas proclamações lhes garantiam o apoio das massas oprimidas”.

E porque sabemos do desfecho da história, das mortes, dos desaparecimentos, da imensa repressão despendida pelo Estado sobre os grupos armados até a sua total dizimação, percebemos o quanto a população esteve alheia a essas ações, de um modo geral. E é nessa direção que autor encerra o capítulo: “as organizações sectárias e vanguardistas da esquerda radical já atuavam quase sem base social. Sua proposta de luta armada não se amplificava pela ressonância. A ditadura militar começou a apresentar o êxito econômico como credencial de legitimação política, o que, se não chegava a ser convincente, ao menos desorientava e neutralizava setores consideráveis da opinião pública, ao mesmo tempo, a ditadura militar aplicava aos diferentes tipos de oposicionistas diversificados instrumentos de repressão, desde as pressões informais, as cassações de direitos políticos e as demissões compulsórias às prisões arbitrárias seguidas de tortura e assassinato.

No entanto, se por um lado a resistência armada não conseguiu derrubar com suas armas a Ditadura, por outro, explicitou algumas das contradições do regime e, com certeza, pelas trágicas consequências advindas das mortes, torturas e desaparecimentos, pressionou a opinião pública a mobilizar-se, um pouco mais tarde, pela abertura política.

Quer mais informação sobre a luta armada?

Sequestro do Embaixador dos Estados Unidos
Além das expropriações bancárias, uma das ações levadas a cabo pelas organizações de luta armada eram sequestros a diplomatas estrangeiros que estavam a trabalho de seus países no Brasil. No geral, esses sequestros serviam como moeda de troca entre as organizações e a Estado, uma estratégia para retiram das prisões e das instituições de torturas, militantes que haviam caído nas mãos da repressão. Nesse caso, após os sequestro dos diplomatas, as organizações lançavam uma carta-manifesto cujo conteúdo, além de explicações a população sobre o sentido da ação, continham os nomes dos presos políticos que deveriam ser soltos e liberados em troca dos diplomatas.

Presos políticos trocados no sequestro do embaixador embarcando para o México.

Presos políticos trocados no sequestro do embaixador embarcando para o México.

No final dos anos 60 e início dos anos 70, foram alguns sequestros e algumas tentativas fracassadas efetivados pelas organizações de luta armada. Um deles, que ficou bastante conhecido, foi o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Para saber mais dessa história, leia o texto 2014.05.02 Texto sequestro embaixador dos EUA de autoria do Gorender, também presente nessa obra.

Além do texto de Jacob, recomendamos, para saber mais sobre o assunto, o filme documentário, Hércules 56.

Filme/Documentário sobre o sequestro do embaixador.

Filme/Documentário sobre o sequestro do embaixador.

Sinopse: Dirigido por Sílvio Da-Rin, o filme documentário brasileiro de 2006, recebeu o nome de Hércules 56 devido á matrícula do avião militar da FAB que transportou para o exílio os presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado por organizações armadas em 1969 durante a ditadura. Além dos 15 presos políticos, que foram banidos do território nacional e levados ao México, foi exigida a divulgação de um manifesto revolucionário pelas principais mídias do país. Para relembrar o episódio, o documentário reúne alguns dos sobreviventes da ação para discutir a luta armada, suas causas e consequências.

Para saber mais, alguns Livros de Memória:

O Riso dos Torturados de Jorge Fischer Nunes
Guerra é guerra, dizia o torturador de Índio Vargas
Verás que um filho teu não foge à luta de Júlio Posenato e Bona Garcia
A Guerrilha Brancaleone de Cláudio Gutiérrez

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