Como já vimos em postagens anteriores, a década de 1960 chegou ao fim em meio a forte acirramento da repressão e da censura por parte da ditadura no Brasil. Os anos de chumbo são lembrados pelo rigor do AI-5, pela forte violência utilizada contra as organizações de resistência ao regime, pelo aniquilamento da maior parte dos militantes da luta armada. Mas o mesmo período, por outro lado, marcou a muitos por ter sido o tempo do “Milagre Econômico”, ou pelo tricampeonato da seleção de futebol na Copa do Mundo do México, em uma época de forte apelo cívico, de demonstrações de amor pelo Brasil, em meio a slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o”, ou “Ninguém mais segura esse país”. Como explicar essa contradição? Como entender que em um mesmo país pessoas morriam nas salas de tortura ou em luta aberta contra a ditadura, ao mesmo tempo em que muitas outras louvavam as “glórias” da nação?

Brasil ame ou deixe

 

O governo do ditador Emílio Garrastazu Médici, entre 1969 e 1974, é reconhecido como um governo feroz contra seus opositores, um período de torturas brutais, mortes e desaparecimentos. Não há dúvidas a respeito disso. Os crimes e arbitrariedades são comprovado por relatos de muitos sobreviventes e por pesquisa historiográficas, são hoje debatido em diversas instituições de ensino e eventos da área. Nesse cenário, além do uso da força e da coerção, obviamente a ditadura tinha forte necessidade de legitimação, de justificar a permanência dos militares no poder e de convencer a população de que o país estava no caminho certo nas mãos das Forças Armadas. Assim, o governo Médici foi também um período de grandes mudanças na política econômica, de incentivo à industrialização, de grandes obras de infraestrutura, e de muitas campanhas ufanistas, que colocavam o Brasil como um “gigante” em fase se crescimento e expansão, que já não era o país do futuro, mas o “país do presente”, que prosperava já naquele momento, e com o qual todos os cidadãos poderiam prosperar se colaborassem com seu trabalho e devoção à pátria.

Efetivamente, esse foi um período de crescimento econômico real, em que os índices alcançados pelo Produto Interno Bruto (PIB) chegaram a patamares até hoje não superados, crescendo em média 11% ao ano. Para termos ideia do que isso significa, desde a implantação do Plano Real, em 1994, até hoje, anos em que se considera que a economia brasileira estabilizou-se e vêm crescendo, o maior índice do PIB foi medido em 2007, e chegou a 7,5%. Aqueles foram seis anos em que a ditadura conseguiu conciliar crescimento do PIB com inflação controlada – alta, porém estável e bem menor do que em toda a década anterior – e com equilíbrio externo na relação entre importações e exportações, sem que houvesse um aumento desenfreado das importações. Nos marcos do sistema econômico em que vivemos, esses elementos são realmente difíceis de conciliar, e por isso o período é chamado por muitos de “período do milagre”. Tais anos de crescimento contribuíram para aumentar a popularidade do governo e para alimentar as campanhas ufanistas, que tiveram um grande impulso com a vitória da seleção brasileira na Copa de 1970. O amor à pátria foi cantado em versos e prosas nesses anos!

Entretanto, com certeza esse cenário merece diversas problematizações… Pelo espaço de que dispomos, vamos apontar duas: sobre que pilares foi construído o crescimento econômico do período e quem ganhou com ele? E, qual o apoio real do povo à ditadura, estando todo esse momento de euforia imerso em um contexto de forte repressão e violência por parte do Estado?

Sobre a primeira questão, muitos já escreveram e observaram que o crescimento impulsionado pelos militares foi calcado no endividamento do país, ou seja, foram feitos diversos investimentos na indústria e em grandes obras públicas com recursos oriundos de empréstimos internacionais a juros altos, que fizeram com que o país entrasse em um ciclo de endividamento externo do qual até hoje é refém. Além disso, boa parte desses recursos foi utilizada em obras “faraônicas”, com a Rodovia Transamazônica, que nunca foi concluída e com a qual de desperdiçou infinitamente – ainda que a ditadura fizesse propaganda favorável ao regime usando tais grandes obras como símbolo do “Brasil gigantes”. Além do endividamento, também é importantíssimo salientar que o crescimento do PIB não significa um desenvolvimento socioeconômico planejado e igual. Ao contrário, o desenvolvimento no período agravou muito a desigualdade social em nosso país, ampliando profundamente o fosso que separa os mais ricos dos mais pobres. Um dos principais fatores que contribuíram para isto foi o arrocho salarial (contenção do aumento dos salários imposta pelo governo), que prejudicou diretamente a classe trabalhadora. Segundo dados publicados em reportagem pela Superinteressante, “A concentração de renda disparou durante o milagre. No índice de Gini, que vai de 0 a 1, ela saltou de 0,50 em 1960 para 0,62 em 1977 – o pior nível da história”, assim como o “valor real do salário mínimo despencou. No final dos anos 70, eram necessárias 153 horas de trabalho para ganhá-lo, contra 65 horas em 1959”. Obviamente o crescimento da produção e da economia de modo geral repercutiu em algumas melhorias para a sociedade, conforme dados trazidos na mesma reportagem, por exemplo: “A expectativa de vida da população brasileira aumentou 9 anos nessa mesma década – o maior crescimento já registrado na história do País” e a taxa de mortalidade infantil também caiu, de 131 mortes a cada 1.000 nascimentos em 1965, para 113 em 1975. São dados importantes, mas com certeza podemos nos perguntar: que Brasil teríamos hoje se as prioridades da política econômica girassem em torno da igualdade social, e não do crescimento para o grande capital, com estímulo à educação e à liberdade de pensamento e expressão?

Em relação à segunda questão, realmente nos deparamos com uma reflexão necessária e complexa: até que ponto a sociedade brasileira em sua maioria compreendia o que acontecia com aqueles que lutavam contra o regime de exceção e tinha chances de se posicionar? Em mãos de quem e repercutindo quais ideias estavam a mídia e as instituições de ensino? Ou, até que ponto uma explicação pelo caminho de que “foram todos manipulados pela ditadura” ajuda a compreender realmente o caráter das opções políticas e ideológicas feitas pela maioria dessa população?

No artigo intitulado “Milagre, comemorações e consenso ditatorial no Brasil, 1972”, que indicamos como leitura, a pesquisadora Janaina Martins Cordeiro traz boas reflexões a respeito dos mecanismos de busca de consenso utilizados pela ditadura, demonstrando que seria muito mais complicado para os militares manterem-se no poder por tanto tempo sem buscar o apoio do povo através do convencimento, para além do uso da força. Além disso, Janaína vai demonstrar o quanto os ditadores foram perspicazes os construir políticas e propagandas que buscavam dialogar com tradições arraigadas entre os brasileiros, estimulando valores e sentimentos já presentes entre a população, como o patriotismo, a valorização da família e da religião. Para tanto, a autora toma como referência principal para “análise sobre a natureza do consenso social durante os anos Médici as comemorações dos 150 anos da Independência do Brasil, realizadas com pompa ao longo de todo o ano de 1972”. Ela afirma que este foi um “momento privilegiado para observar as relações entre sociedade e regime em sua complexidade, buscando ultrapassar a lógica, por vezes simplificadora – dominante, sobretudo nos discursos de determinada memória – e que coloca de um lado um Estado opressor e de outro, uma sociedade vitimizada. Desse ponto de vista, conformam importante espaço para se observar os mecanismos de formação de um consenso no seio da sociedade, fundamental para a sustentação da ditadura naquele momento”.

Atualmente discute-se nos meios acadêmicos e militantes o uso do conceito ditadura “civil militar”, e não apenas “militar” como forma de explicitar o apoio de setores da sociedade civil ao golpe de Estado e ao regime ditatorial implantado a partir dele. Em nossa perspectiva, acreditamos, sim, que houve apoio civil, mas que estava relacionado de maneira direta à elite brasileira, que apoio institucional e financeiramente a ditadura para defender seus interesses de classe. Porém, admitimos e compreendemos a importância de aprofundar as pesquisas e discussões em torno do apoio de outros segmentos civis, que fazem parte das classes popular, especialmente como forma de minimizar explicações que vitimizam e menosprezam a participação social e a capacidade de compreensão e atuação político-social do povo. E a análise do contexto do chamado “milagre” com certeza é importante para tais problematizações. Teria o povo cantado seu amor ao Brasil por puro medo, ignorância ou inércia, ou em determinado momento fez a opção de apoiar os governos militares ditadores? Essa pergunta, por mais incômoda que possa soar, precisa ser encarada, sob pena de não superarmos compreensões e valores conservadores. Para que possamos prosseguir na construir de uma sociedade realmente democrática, participativa e igualitária, precisamos encarar de frente nossa história, fazendo as críticas necessárias aos ditadores militares, com temos feito e denunciado, mas também aos segmentos abastados entre os civis que apoiaram e incentivaram que os militares tomassem e se mantivessem no poder, e aos demais segmentos da sociedade que podem ter apoiado um regime discricionário baseado no Terrorismo de Estado em nome de ideologias reacionárias.

Anúncios