Podemos aprender muito sobre a história de nossa sociedade ao observar nosso presente. Afinal, tudo que existe tem uma história, tudo passou por um processo de transformação até se tornar o que é no presente. Observando nosso cotidiano iremos perceber que, muitas vezes, não vivemos como gostaríamos. Inúmeras limitações são impostas às nossas potencialidades e vontades por determinadas estruturas sociais (economia, política, cultura, etc.). Da mesma forma ocorreu com as pessoas que viveram antes de nós. Assim, devemos tentar compreender a história como a relação entre os indivíduos e as estruturas que os limitam.

Hoje, refletiremos sobre experiências de pessoas que viveram intensamente as disputas existentes no Brasil no incício da década de 60, que culminaram com o Golpe Civil-Militar de 1º de Abril de 1964. As vidas desses homens e mulheres foram alteradas completamente pelo enfrentamento que apresentaram frente ao regime que se instalava, de caráter profundamente repressivo e anti-democrático desde os seus primeiros momentos. Praticamente todos que se dispuseram a combater essas arbitrariedades foram atingidos pela violência, que ocorria sob diversas formas. Muitos viram-se obrigados a fugir do país, a exilar-se, para garantir sua sobrevivência física. É claro que nem todos que se opunham ao regime tiveram tempo ou condições financeiras para isso. Estes tentaram sumir em seu próprio país, através da clandestinidade, e a maioria caiu sob as garras do terror implementado pelo Estado brasileiro. Nesse post iremos nos focar nas experiências de exílio, utilizando alguns elementos apresentados por Grunberg.

Comecemos com a história de um gaúcho de Pelotas, que muito novo passou a defender princípios democráticos, quando ajudara a organizar uma associação de bairro ou quando fora eleito presidente do grêmio estudantil de sua escola. Jadir Schwans Bandeira fora taxado de comunista por sua postura, o que significava uma postura negativa, num contexto em que, como já vimos, se criara uma aversão a essa posição ideológica. Jadir defendeu a legalidade e o governo Goulart contra o Golpe, apesar de não ter participação orgânica em nenhuma organização política. Esteve preso duas vezes, acusado de ser um agitador. Em 1966 resolve fugir para o Uruguai, Brizola no exílio, no Uruguaionde já se encontravam Goulart e Brizola, além de tantos outros militantes. Pode ser considerado parte de uma minoria, por não ter uma organização que lhe auxiliasse, nem significativos recursos financeiros, o que aumentava suas dificuldades. A trajetória de Jadir no exílio é influênciada pelo avanço de outros golpes militares nos países do Cone Sul, que o perseguiram. Assim, se vê obrigado a abandonar o Uruguai em 1973, quando lá se instala uma ditadura militar. Segue para a Argentina, permanecendo apenas até 1976, quando aquele também país passa ao tacão militar. A alternativa encontrada foi a fuga para a Europa. Com a ajuda da embaixada sueca, consegue embarcar num avião que o levou a esse desconhecido e longínquo país europeu. Nunca mais retornaria à América. Com seus atuais 70 anos, afirma que não pretende voltar ao Brasil, pois “seria como abrir uma ferida outra vez”, conforme declarou para reportagem da BBC Brasil. Assim como em Jair, em tantos outros brasileiros (massacrados por defender o sonho de viver em um país mais justo e igualitário) as feridas ainda existem. Porém, essas são feridas que marcam toda nossa sociedade, que permanecerão enquanto não forem devidamente saneadas. Crescemos como indivíduos e como sociedade no enfrentamento dessas questões, que não podem ser e não são esquecidas.

Jair faz parte da primeira geração afetada pelas perseguições da Ditadura militar. Esses foram os primeiros a se verem obrigados a sair do país para garantir sua vida e poder manter algum tipo de atuação política. Eram integrantes do governo, defensores de um projeto reformista de transformação social, inúmeros militares contrários à ditadura, históricos líderes da esquerda (sobretudo comunistas). Essa primeira etapa de perseguição política fora nomeada de “Operação Limpeza”, por limpar o caminho para a construção do governo militar e de seu projeto de sociedade.

Porém, boa parte da sociedade não assiste passiva a esses eventos, mantendo permanentemente a crítica aos militares, que crescem com as constantes denúncias de violência e do uso de tortura. Em 1968 essa oposição atinge maior expressão e capacidade de pressionar aqueles que estavam no poder, o que provoca uma resposta ainda mais repressiva do Estado, corporificada no AI-5. A partir de então temos uma segunda leva de exilados. Conhecidos artistas são obrigados a sair do país, porImagem22APERJ apresentarem um posicionamento crítico em suas produções. Muitos integrantes de organizações clandestinas de resistência à ditadura fogem do país, conforme suas organizações eram desmanteladas pela repressão. Diversos presos políticos conseguem exilar-se a partir de ações armadas orquestradas por suas organizações.

Se a experiência do exílio afastou pessoas de seus entes queridos, desarticulou organizações políticas e projetos de vida, deixou em suspenso sonhos de um país transformado, em contrapartida, possibilitou condições para a denúncia do regime a nível internacional, o que ajudou a fragilizá-lo frente a opinião pública de diversos países, sobretudo na Europa, oportunizou a construção de redes de solidariedade, a criação de novos movimentos sociais e políticos, a rearticulação da resistência desde o exterior.

1373998694418_abaixo_a_ditaduraDe forma aproximada, foram cerca de 5.000 brasileiros exilados durante a “longa noite” iniciada em abril de 64, que durou cerca de 21 anos. A luta pela anistia seguiu durante anos no Brasil, sustentada por diversas organizações de direitos humanos e defensoras da retomada da democracia. Contudo, em 1979 o governo militar implementa um projeto de Anistia que desconsiderava as diferenças fundamentais existentes entre perseguidos e perseguidores, buscando com isso criar condições para o lento processo de abertura política. Por essa Anistia, que segue em vigor até hoje, são igualados aqueles que utilizaram indiscriminadamente diversos mecanismos de repressão e controle, sustentados pelo Estado, e os militantes, que com organizações precárias buscaram resistir ao arbítrio. Assim, enquanto a maioria destes últimos voltavam ao país, o próprio regime em distensão e a elite política e econômica por ele representada buscou construir um discurso e uma prática de se esquecer o passado.

Hoje nós dizemos: não esqueceremos! Lutamos contra o esquecimento, questionamos a Lei de Anistia, que segue nos impedindo de punir aos torturadores, e reafirmamos que a necessidade de memória, verdade e justiça, para que nunca mais aconteça.

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