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No mês de junho, as postagens do Blog Resistência versão sobre assuntos relacionados à temática do exílio durante o período da Ditadura. O exílio, durante os anos de 60 e 70, foi uma das ações levadas a cabo pela ditadura, para afastar e eliminar do cenário nacional aqueles que formavam as fileiras da resistência. Da mesma forma que a prisão política, os assassinatos, a clandestinidade imposta a muitos, ele foi mais uma estratégia de destruição de projetos políticos não condizentes com o projeto da ditadura. Compreendido dentro da temática do exílio, também abordaremos alguns conteúdos relativos às ditaduras que sucederam a brasileira em outros países da América Latina cujas histórias influenciaram nas experiências do exílio para muitos brasileiros.

Capa do LivroPara desenvolvermos melhor esse assunto, selecionamos para hoje o artigo Nômades, sedentários e metamorfoses: trajetórias de vidas no exílio, escrito por Denise Rollemberg, professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, que faz parte de uma coletânea intitulada O Golpe e a ditadura militar quarenta anos depois (1964-2004), organizada por Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta. Nesse livro, os autores reuniram trabalhos de diferentes pesquisadores a respeito do período, a partir de diversos referenciais teórico metodológicos. Os artigos estão organizados em quatro grandes partes: História e memória; Política, Economia e Sociedade; Cultura e Política; e Repressão, Censura e Exílio. De certo modo, a obra foi uma tentativa de balanço sobre os conhecimentos a cerca do período, 40 anos após o início do período ditatorial, e apresentou um amplo painel sobre múltiplos aspectos do país durante os anos da ditadura.

Do livro, escolhemos o texto da professora Denise como uma sugestão de leitura para aqueles que se interessam pelo tema do exílio. Partindo de um trabalho com História Oral, a autora se propôs a “contar” a história do exílio brasileiro de 1964 a 1979.

Dentre seus maiores problemas no desenvolvimento desse trabalho estavam questões bastante caras aos pesquisadores de história, como o papel da subjetividade na história e de quanto ela pode atuar nos eventos e processos históricos – isso porque Rollemberg percebeu uma imensa diferença nas formas como os exilados vivenciaram a experiência de terem sido obrigados a viverem fora do país, desde aqueles que relembram o período como o pior momento de suas vidas até aqueles que rememoram o fato por meio de uma valorização das possibilidades que se abriram a partir dessa experiência.

Dessa forma, Denise avalia que o exílio “foi uma experiência heterogênea, vivida em função de uma série de variáveis”. Uma dessas variáveis diz respeito as gerações que o vivenciaram. Segundo ela são duas, a geração de 1964, identificada com “o projeto das reformas de base, ligados a sindicatos e a partidos políticos legais, como o PTB, ou ilegais, como o PCB”. Essas pessoas, quando foram para o exílio, já possuíam uma vida mais estruturada, tanto familiar quanto profissional. Apesar de terem se exilado em diversos países, o Uruguai foi o maior polo de concentração nessa primeira fase. A segunda geração, de 1968, caracterizada por “militantes mais jovens, extremamente crítico à posições e práticas do PCB e do PTB, muitos originários do movimento estudantil, de onde saíram para se integrarem à luta armada em organizações que supervalorizavam a ação revolucionária”, era composta por pessoas, em sua maioria, ainda não definida profissionalmente. O Chile e a França foram os países de destinos da maior parte desses exilados.

A segunda variável, remete a uma tentativa de periodização vivida pelos exilados. A Autora propõe uma análise desde a ideia de três fases caracterizadas por “tendências e situações predominantes e/ou significativas” que auxiliam na compreensão do fenômeno exílio. A primeira teria iniciado em 1964 e se estendido até 1973 com o Golpe do Chile. Até esse momento, muitos dos militantes permaneciam na América Latina, próximos das lutas travadas no continente. Teriam julgado que o período do exílio seria curto e que em breve retornariam ao Brasil para darem prosseguimento a sua militância em solo pátrio. A segunda fase teria iniciado com “a chegada dos brasileiros a países com culturas bem diferentes, em comparação com a dos países latino-americanos”. Teria seguido a isso as dificuldades de adaptação e a constatação de que a volta ao Brasil estava mais distante. Conforme a autora, esse foi o período da “diáspora”, do exílio em vários países, sobretudo da Europa Ocidental o que possibilitou a experiência de vivências múltiplas e variadas que teriam reconstruído a identidade dos exilados e suas referências políticas. Por fim, a terceira faze, que não teria sido marcada por um evento, mas por um processo de desgaste da fase anterior que evidenciou as dificuldades de adaptação, principalmente profissional. Nesse momento, a busca de outros países não acontecia em decorrência de fugas e de constrangimentos e sim como um “movimento de deslocamento motivado por fatores econômicos e ideológicos”, fase chamada pela autora de a migração no exílio.

Denise conclui seu texto defendendo a leitura de que o “exílio significou o desenraizamento das referências que davam identidade política e pessoal às gerações 1964 e 1968. A derrota de um projeto. O constrangimento ao estranhamento. A perda do convívio com a língua materna, o afastamento das famílias, as separações. A interrupção de carreiras, o abandono de empregos. A ruptura física e psicológica. A desestruturação”. Desde Rollemberg, muitos sentiram esse período como um luto cujas sequelas se tornaram irreparáveis. No entanto, também salienta a autora, na conclusão de seu texto, que a experiência também foi vivida por muitos como uma possibilidade de ampliação dos horizontes devido a “descoberta de países, continentes, sistemas e regimes políticos, culturas, povos, pessoas”, que lhes proporcionaram o contato com “outras trajetórias históricas e com outras referências”.

A volta clandestina dos exilados, desde a autora, para enfrentar o regime, ocorreu de forma consentida em um contexto de formulação da lei de anistia pela ditadura, que até o final se sobrepôs a lei desejada pelos movimentos sociais. A militância teria ganhado outro significado a partir da redefinição das gerações de 1964 e 1968. Para Denise “os conceitos tradicionais de revolução foram repensados e uma outra questão veio para o centro do palco: a democracia”.

Esperamos que essa resenha contribua para a curiosidade acerca da temática do exílio, experiência que julgamos não somente importantes para aqueles que a viveram individualmente, tanto os exilados quanto as famílias que permaneceram no Brasil, quanto para a história de um país que em determinado contexto expulsou cidadãos de seu território pátrio, na tentativa de afastar e de eliminar pessoas contrárias ao projeto político defendido pela Ditadura Civil-miliar instaurada em 1964.

Bibliografia
CRUZ, Denise, Rollemberg. “Nômades, sedentários e metamorfoses: trajetórias de vidas no exílio”. IN: Ridenti, Marcelo; Motta Sá, Rodrigo Patto (org). O golpe e a ditadura militar quarenta anos depois (1964-2004). São Paulo: EDUSC, 2004. p. 277-296.

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