Para entender bem o que foi o golpe militar tanto na Argentina como no Brasil é necessário olhar para o momento que antecedeu tais acontecimentos. Nesta semana apresentamos o seguinte eixo temático: “Ditaduras no Cone Sul”. Buscaremos nesta noticia explorar a “configuração das alianças golpistas” na Argentina em comparação com as do Brasil. Para tanto recorreremos ao texto do historiador Argentino Hernán Ramírez, que está disponível no final da notícia.

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Presidente Peronista Illia  ao lado do Gen. Ongania, responsável pelo golpe de Estado na Argentina 1966.

Para o autor é no varguismo e no peronismo, a partir da década de 1930, que essa relação política entre diferentes segmentos (militares, empresariais e burocráticos) vão se consolidando em torno do desenvolvimento de várias empresas estatais.

No Brasil, os empresários e tecnocratas tiveram maior participação no golpe através das relações de caserna (dentro do exército) e do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (IPES). O IPES usava uma roupagem católica para promover suas atividades. Uma delas era tentar chegar aos setores populares, as donas de casa, os empresários, o movimento estudantil, operário e comunitário e é dessa forma que obtinham do embasamento para uma atuação de massa. O IBADE financiava campanhas políticas de candidatos que fizessem oposição a João Goulart, fazendo forte propaganda contra as reformas de base iniciadas pelo PTB.

Na Argentina a Fundación de Investigaciones Económicas Latinoamericanas (FIEL) tinha sido fundada em 1964, era um instrumento ideológico da alta burguesia argentina, representava o empresariado. Ao contrário do IBAD do Brasil, que agia com apoio militar e financiava seus membros para que ocupassem cargos políticos no governo, a FIEL  ficou com os principais cargos da área econômica durante esse período.

Para Hernan os golpes de estado anunciavam o fracasso desses partidários mais conservadores em buscar o governo pela via democrática. Do outro lado da moeda se encontra tanto o Peronismo Argentino como o Trabalhismo Brasileiro, que obtiveram sucesso com apoio do povo. No caso do Peronismo Argentino vai ser o fantasma que irá assombrar as classes conservadoras e elites empresariais. Aproximar-se do povo era uma dificuldade dessas forças conservadoras ou de direita. (Linz, 1978).

Nessa passagem, Hernan fala da dificuldade de aproximação ou pressão das classes conservadoras para com as populares – “tinham pouca penetração nos movimentos sociais e inclusive, no caso argentino, várias das organizações industriais e agropecuárias se encontravam divididas em frações com posições escassamente conciliáveis que as levavam a enfrentamentos internos e a diluir seu potencial de pressão.”

ditadura-argentina

General Ongania

Em 1963 a candidatura de Umberto Illia vence o pleito eleitoral. Começa a se articular uma reação à vitoria de Illia através destes setores descontentes, qual já citamos acima sua organização. A conspiração para a derrubada de Illia era feita praticamente em público. Segundo Carlos Fico em seu texto que fala sobre o ” Brasil e EUA durante o golpe de 1966 na Argentina”:”Falava-se abertamente e com naturalidade do golpe.18 Em dezembro de 1965, a revista Confirmado, fazendo previsões para o ano-novo, profetizou que as Forças Armadas tomariam o poder”. Afirma ainda que tanto Castelo Branco quanto Onganía (general que liderou o movimento golpista da Argentina) compartilhavam a ideia de que os Estados Unidos lideravam o “mundo livre” e, portanto, países como Argentina e Brasil deveriam apoiar o combate ao comunismo dentro de suas fronteiras, enfrentando o “inimigo interno”, no contexto das “fronteiras ideológicas”.

Se formos comparar, 1966 na Argentina com o 1964 Brasileiro, encontraremos poucas semelhanças. As questões que levaram ao golpe de estado na Argentina não diziam respeito diretamente a candidatura do político Illia, mas ao longo e não resolvido problema do peronismo. No Brasil, a agitada passagem de João Goulart pela presidência da República foi muito mais determinante para a eclosão do golpe. Lá, o antiperonismo foi central; aqui, o anticomunismo.

FICO; Carlos Fico: Brasil e EUA durante o golpe de 1966 na Argentina

RAMIREZ, Hernan Ramirez: A configuração das alianças golpistas nas ditaduras de Brasil e Argentina: uma perspectiva a partir da imbricação cívico-militar.

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