O cineasta grego, naturalizado francês, Constantin Costa-Gavras se notabilizou pela perspectiva crítica como constrói seus filmes. Em muitos destes, volta-se à exposição de algumas experiências vividas no interior de regimes de cunho autoritário. Em 1972 grava o longa Estado de Sítio (État de siège) no Chile, pois fora proibido de o fazer no país onde os acontecimentos retratados realmente se passaram: o Uruguai. Este país progressivamente se aproximava do momento de ruptura de sua Constituição, baixo o tacão militar e os desmandos das elites nacionais e estrangeiras, o que ocorreu em junho de 1973. O filme retrata a trama que permeia o sequestro do embaixador brasileiro no Uruguai e do agente estadunidense Dan Mitrione, pelo Movimento de Libertação Nacinoal – Tupamaros.

Os sequestros ocorreram em 1970, como uma forma de pressionar o governo de Juan Maria Bordaberry, que apresentava íntima ligação com as Forças Armadas e subserviência aos interesses da elite uruguaia e estrangeira, o que tornava o sistema democrático muito restrito, quase apenas como uma faixada. Assim reprimia violentamente a oposição ao seu governo, que se encontrava, sobretudo entre os estudantes e sindicalistas. Os Tupamaros tomam a luta armada, através da guerrilha urbana, como uma forma de resistir ao arbítrio e de denunciar os caminhos a que seguia o país. Os sequestros de figuras de destaque ligadas ao governo podem ser compreendidos neste contexto. O embaixador brasileiro e Dan Mitrione são personagens representativos da influência estrangeira na política interna uruguaia, respectivamente do Brasil e dos Estados Unidos, que foram importantes promotores dos golpes de Estado que ocorrem na América do Sul.

Indicamos o filme por sua qualidade em expressar questões extremamente pertinentes para compreendermos as relações golpistas e repressivas que existiam entre os países. Porém, também, por trazer o drama daqueles jovens tupamaros que (como tantos outros, de diversas nacionalidades) doaram suas forças e seus mais belos sonhos para a construção de uma sociedade mais justa, mesmo que enfrentando uma impiedosa máquina de repressão e controle, que se articulava além das fronteiras (sob as asas do Condor ou não).

Vale a indicação de algumas leituras que podem contribuir para a compreensão desse processo: PADRÓS, Enrique. A ditadura civil-militar uruguaia: doutrina e segurança nacional.

PADRÓS, E; FERNANDES, Ananda. A gestação do golpe no Uruguai: o governo Bordaberry e o papel dos militares (1972-1973) .

 

 

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