Deveria ocorrer no dia 21 de novembro de 1973, no Estádio Nacional do Chile, a partida de futebol entre as seleções do Chile e da URSS, para a disputa de uma das últimas vagas da Copa do Mundo de 1974, na República Federal da Alemanha. Seria a segunda partida da “repescagem”, tendo a primeira ocorrido em Moscou, onde as duas equipes empataram sem gols.

Jornal chileno trata do primeiro jogo com a URSS (sem identificação)

A vaga seria decidida em território chileno, contudo, os adversários soviéticos boicotaram a partida e não compareceram. Por isso é dado início à partida com um só time em campo, apenas para satisfazer necessidades protocolares. Encontrava-se o futebol dilacerado, expressado na tristeza de um Estádio Nacional praticamente vazio e no gol efetuado melancolicamente por jogadores chilenos. Gol, o grande momento desse esporte, fora efetuado pelos jogadores chilenos como se estivessem cometendo um crime e por isso buscavam dividir a responsabilidade, ao avançarem trocando passes à meta adversária vazia.

A equipe soviética decidira não comparecer, em protesto aos acontecimentos que abalavam o Chile desde setembro de 1973, além de que correriam grande perigo estando baixo dos ditames de Pinochet, o ditador que havia assumido o poder. Precisamente desde 11 de setembro, que marca a trágica derrubada de uma das experiências mais significativas de transformação social vivenciadas no mundo, não só para a América Latina. O governo de Salvador Allende, eleito democraticamente e respeitador da ordem constitucional (que limitava o projeto que tinham para a sociedade), apesar de grande apoio popular comprovado em seguidas eleições, fora derrubado em um golpe militar. O Palácio de la Moneda, sede presidencial, fora bombardeado durante a resistência liderada por Allende, que não saíra de lá com vida. Para saber mais, indicamos o ótimo documentário A Batalha do Chile, que proporciona o quadro geral do golpe

O mesmo Estadio Nacional seria utilizado, pela ditadura recém instaurada, como campo de concentração e de tortura de setembro à novembro de 1973, aparentemente encerrando essas atividades poucos dias antes do jogo. Fora nesse estádio que Victor Jara, um dos principais músicos chilenos e defensor do projeto do governo Allende, fora torturado e assassinado. Seu assassinato pode ser compreendido dentro da ação para calar ou destruir o pensamento engajado e crítico, através da utilização do terror e da violência. Estes foram empregados intensamente no Chile, que havia vivido importantes transformações, motivadas pelo engajamento e pela crítica.  Para melhor compreensão sobre o significado de Jara indicamos o artigo A canção Revolucionária de Victor Jara e o terrorismo cultural do Golpe de Estado Chileno.

Isso refletiu no universo do futebol, que não passou alheio ao que ocorria. Diversos jogadores chilenos desenvolveram significativo pensamento crítico. Carlos Caszely era um destes e por isso tivera sua mãe sequestrada e torturada pelo regime liderado por Pinochet. Não havia qualquer acusação contra ela, contudo isso fora realizado para constranger o jogador, que era um dos principais da seleção chilena. Acontece que o ditador coloca-se frente a Caszely, ao se despedir da seleção que seguiria para a Copa na Alemanha Ocidental. Nega o aperto de mão do ditador, com todos os riscos que isso trazia a si (para mais informações, leia a matéria publicada no Blog da Boitempo). É interessante o uso que Pinochet, assim como outros ditadores, buscaram fazer do esporte, sobretudo do mais popular deles. Seu discurso revela a busca por legitimidade frente a oponião pública internacional (mas também nacional), com a utilização do futebol para esse fim.

 

Durante a Copa ocorre o protesto de algumas pessoas, que utilizaram a visibilidade do mundial para denunciar a Ditadura de Pinochet e a toda a violência que se vivia no Chile.

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