A Igreja Católica é uma das maios poderosas e influentes instituições brasileiras, de ontem e de hoje. Alguns segmentos da instituição atuaram como força fundamental para a desestabilização do governo João Goulart, utilizando e fomentando a histeria anti-comunista existente para parte da sociedade civil. Não entraremos aqui em detalhes, mas alguns acontecimentos falam por si (dentre tantos outros que poderíamos trazer): as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que levaram multidões às ruas do país (Porto Alegre sediaria uma, mas fora cancelada após vitória golpista); os sermões do padre estadunidense Patrick Peyton, na Cruzada do Rosário em Família, que percorreu em diversas capitais no ano de 1963 (inclusive Porto Alegre); os discursos semanais no rádio de Dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre, no programa “A voz do pastor”. Contudo, a Igreja não é monolítica, pois em sua vasta organização não se consegue impor com facilidade uma forma de pensar e agir. É uma instituição que se expande horizontalmente – acessando os rincões mais distantes do Brasil, assim, podendo ter contado com as mais humildes parcelas da população – mas também se concentra verticalmente – acessando com isso os centros de poder econômico e político. Por isso, podemos afirmar que a Igreja não estava totalmente unida na implementação do Golpe, existindo desde o início setores da oposição, estando ligados aos movimentos populares, que apresentavam uma postura progressista em sua atuação política. Estes religiosos foram muito atuantes, por isso recebendo grande atenção do aparato repressivo do Estado brasileiro. Indicamos o filme de Helvécio Ratton, homônimo ao livro de Frei Betto, O Batismo de Sangue. Expressa parte da experiência de alguns frades dominicanos no final da década de 60, quando a violência e o controle espreitavam a cada esquina.

A ampla utilização da tortura passou a não ter mais condições para ser negada, principalmente após a implementação do Ato Institucional nº 5. A violência passou a atingir toda a sociedade, não mais sendo exclusividade da grande massa de pobres. Além disso, a louvação da “revolução que salvava o Brasil do comunismo” passou a deixar de ter tanto sentido, na medida que se implementou uma ditadura que estava durando muito mais do que haviam esperado. Assim, mudam de posicionamento antigos entusiastas do golpe ou passam a tomar um posicionamento crítico, assumindo um lugar na oposição. A Igreja Católica, mesmo em sua alta hierarquia, passa a questionar a ditadura, assim como outros importantes órgãos da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O trabalho realizado por esses órgãos foi de grande importância para o fim da ditadura. Tomemos como exemplo o projeto Brasil nunca Mais, organizado pela Arquidiocese de São Paulo e pelo Conselho Mundial de Igrejas no final dos anos 80. Apresentava três objetivos fundamentais: “evitar que os processos judiciais por crimes políticos fossem destruídos com o fim da ditadura militar, […] obter informações sobre torturas praticadas pela repressão política e que sua divulgação cumprisse um papel educativo junto à sociedade brasileira”. O livro publicado, com o mesmo nome do projeto, foi recebido com grande repercussão interna e estrangeira, devido sua qualidade investigativa e pelo reconhecimento da instituição que o produziu. Podemos encontrar o livro, além de outras informações, no site http://bnmdigital.mpf.mp.br/#!/.

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