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Retratos da ausência

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O trabalho de Gustavo Germano busca recriar uma cena vivenciada a décadas, que fora eternizada pelas lentes de máquinas fotográficas. Na comparação das imagens se percebem ausências de alguns protagonistas. Além disso, pode-se perceber que as pessoas presentes mudaram muito, não apenas pela passagem natural dos anos, mas pela necessidade de conviver diariamente com uma insolúvel dor. São marcas causadas pela saudade do companheiro ou da companheira que não esta presente; por ter a certeza de nunca mais o ver; por imaginar diariamente quais foram os lugares e a forma de seus últimos momentos, mas ter que conviver com a impossibilidade de ter certezas, portanto ter que imaginar diversas hipóteses; de ter parte de seus sonhos e expectativas arrancados brutalmente por um regime que se assentava sobre a violência. Não acreditamos que pode haver qualquer forma de beleza assentadas sobre tais brutalidades, quer na forma de imagens ou texto, contudo, esse tipo de produção nos toca para a humanidade de tudo que estamos tratando. Nos faz sentir e pensar sobre as repercussões do terror de Estado, de suas torturas, prisões, desaparecimentos, mortes e o enorme silêncio e desinformação que paira acima de tudo isso. 

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Resposta das Forças Armadas à Comissão Nacional da Verdade

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     As Forças Armadas deixaram de aproveitar mais uma oportunidade de enfrentar seu passado e contribuir com a vida democrática. Isso por terem novamente negado a verdade frente pedido de esclarecimento feito pela Comissão Nacional da Verdade, ao que responderem que não houve prática de tortura em espaços controlados pelas três Armas. Continuam a negar a violência, a tortura e as mortes cometidas pelo aparato de Estado contra seus cidadãos, em prol de um determinado ideal de sociedade. Ideal que foi construído na articulação entre setores militares e civis, justamente aqueles setores que ocuparam os espaços de poder durante os anos da ditadura. Para ser justo, não são todos militares que negam que praticaram estes atos, mas afirmam que foram realizados por um bom motivo. Esses afirmam que estavam em uma guerra (de um só exército, diga-se de passagem) e que estavam do lado da “democracia”. Deveriam justificar isso a si e aqueles que os rodeavam enquanto massacravam presos políticos, das mais variadas organizações de esquerda, desde os primeiros anos da ditadura. De qualquer forma, esperávamos que a instituição militar, submetida constitucionalmente ao controle civil (de onde deveria emanar todo o poder do Estado), oficialmente expusesse o que ocorreu e ajudasse a tornar mais claros casos ainda não resolvidos. Contudo, mantém-se com cínica negação de suas práticas, já comprovadas tanto quanto possível (de acordo com a fracionada documentação acessível) e por diversas organizações, que lutam a anos pela Memória, Verdade e Justiça.
     O projeto Brasil Nunca Mais, desenvolvido em conjunto por advogados e grupos religiosos (apoiados pelo Conselho Mundial de Igrejas), buscou, a partir de 1979, produzir cópias dos processos existentes no Superior Tribunal Militar, para que não se perdessem e pudessem ser base para a produção de uma obra de denúncia. Os advogados utilizaram do direito de retirar os processos por vinte e quatro horas para vistas, para produzir cópias, que, em seguida, eram enviadas para São Paulo. Conforme o site Brasil Nunca Mais digit@l: “Aproximadamente após seis anos de trabalho em sigilo, a tarefa foi finalizada. A reprodução dos 710 processos judiciais consultados totalizou cerca de 900 mil cópias em papel e 543 rolos de microfilmes. Ademais, foi produzido um documento-mãe, denominado “Projeto A”, com a análise e a catalogação das informações constantes dos autos dos processos judiciais em 6.891 páginas divididas em 12 volumes.” O Projeto A pode ser encontrado digitalizado em sua totalidade no site . No Tomo V – Volume 1: A Tortura, podemos encontrar uma lista de espaços utilizados para a tortura no Rio Grande do Sul, conforme as informações contidas nos processos, principalmente nos depoimentos dos presos políticos. Ainda que não majoritários, encontramos indícios de terem sido utilizados espaços administrados pelas Forças Armadas para esses fins.
        A Comissão Nacional da Verdade foi uma das últimas organizações a tencionar essa questão, ao encaminhar um pedido de esclarecimento às três Armas, quanto a utilização de espaços físicos por elas geridos para a prática de tortura. Solicitou a abertura de sindicâncias internas para pesquisar e apresentar respostas. Após semanas afirmaram que não houve qualquer tipo de irregularidade e de alteração das funções dos espaços por elas administrados. Frente a essa resposta torpe, a CNV encaminhou um pedido de esclarecimentos ao Ministério da Defesa, responsável civil pelas irresponsáveis Forças Armadas, ao menos quando encaram a história do período. Assim, a CNV pede que sejam dadas algumas explicações coerentes com o que já se sabe, portanto, que não neguem os depoimentos de milhares de pessoas que sofreram direta e indiretamente com o terror do Estado, que sabem, que foram obrigadas a (sobre)viver nos porões da ditadura. Claro, não nos devemos esquecer dos depoimentos de alguns ex-torturadores que relataram suas práticas, quando na ativa (podemos citar o caso recente do depoimento prestado por Paulo Malhães à CNV, em 27 de março https://www.youtube.com/watch?v=e2SnsSYG7O0).
     Somente por essa breve exposição podemos perceber quão grave é a situação. Além de tantas heranças impostas, aparentemente se mantém Forças Armadas que não servem os cidadãos, o que deveria dar sentido às suas ações. É fundamental que nossa sociedade, como um todo, enfrente o período da ditadura. Sendo coerentes não podemos atribuir todos os males de nossa sociedade à ditadura, mas não podemos deixar de compreender as transformações do período, principalmente observando a quem serviam. No trabalho educacional percebemos que os alunos carregam grande desconhecimento sobre o passado nacional, principalmente do que poderia ser compreendido como História do tempo presente. Isso resulta que não tenham as ferramentas necessárias para se compreenderem como sujeitos nesse processo, assim como para compreender as influências que tocam suas vidas. Democracia não é apenas uma forma de governo, mas é um prática constante, que deveria atingir muitos âmbitos de nossas vidas. Acreditamos que essa prática se constrói com educação, principalmente com educação crítica, que não fuja de questões essenciais, ainda que delicadas. Criticamos a postura anti-democrática e profundamente conservadora dos maiores representantes das Forças Armadas, mas não podemos deixar de criticar os governos eleitos após a redemocratização, por não terem enfrentado com a devida seriedade as questões referentes à ditadura. Não nos parece que qualquer problema é resolvido de fato com a negação do problema, com sua superação mais virtual que real.

APERS participa do XII Encontro Estadual de História ANPUH/RS

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Na última semana, entre os dias 11 e 14 de agosto, aconteceu o XII Encontro Estadual de História ANPUH/RS: História, Verdade e Ética; onde foram exibidos pôsteres referentes às oficinas do Programa de Educação Patrimonial do Arquivo Público do RS (APERS) em parceria com a Universidade Federal do RS (UFRGS).

A participação do APERS ocorreu no dia 12, na sessão de “Extensão”, onde os estagiários Gabriel Chaves Amorim e Guilherme Tortelli apresentaram o trabalho intitulado História, memória e verdade: reflexão sobre desafios éticos a partir da aplicação da oficina “Resistência em Arquivo: Patrimônio, Ditadura e Direitos Humanos”; já o bolsista Gustavo Mor Malossi e o estagiário Eduardo Hass da Silva expuseram o trabalho denominado Patrimônio, Escravidão e Ensino: abordagens e desafios éticos no ensino sobre escravidão no Rio Grande do Sul a partir da oficina “Os Tesouros da Família Arquivo”. Ambos trabalhos tiveram a orientação da servidora Clarissa Sommer Alves.

Participar do evento permitiu a troca de experiências com pesquisadores de diferentes partes do Estado, dando subsídios teóricos e metodológicos para continuar desenvolvendo e aprimorando as atividades desenvolvidas no Programa de Educação Patrimonial, bem como possibilitou a divulgação das atividades, criando novas possibilidades de pesquisa e problematização.

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Relato de sobrevivência: Nilce Azevedo Cardoso

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Nilce Azevedo Cardoso

Nilce Azevedo Cardoso

Trazemos esta semana depoimentos de Nilce Azevedo Cardoso contando trazendo relatos de sua vida, sua juventude, sua história de militância política, uma história de perseguição do regime militar, de dor, de tortura, mas de também de resistência,superação e vitória!

O depoimento de Nilce seja de forma escrita quanto seu depoimento gravado em vídeo são impactantes. Os relatos nos trazem um pouco da ideia do que foi a perseguição a ditadura, a resistência e da repressão.

No vídeo abaixo Nilce dá seu depoimento no primeiro encontro da comissão estadual da verdade do Rio Grande do Sul, em uma audiência pública que aconteceu dia 08 de março de 2013.

Sim, meu pai, também posso dizer “Nossa luta não foi em vão”

Nilce Azevedo Cardoso

Meu pai me perguntou se tinha valido a pena tanta dor. Na época, eu só respondi que sabia com o que eu estava comprometida e quais seriam as conseqüências. Agora, propondo-me a escrever sobre as torturas que me foram impostas, essa pergunta aparece novamente. Passados trinta anos, o sentimento que me assalta é de esperança e, ao mesmo tempo, de horror.

Esperança de que o que fizemos continue a dar frutos, porque, apesar de tudo o que nos aconteceu, fizemos a história avançar, porém nenhum torturador e, principalmente, seus mandantes foram julgados ou condenados. Acreditávamos e continuo acreditando na necessidade de construirmos um mundo sem exploradores e explorados, onde o ser humano pudesse e possa viver como ser humano, numa sociedade solidária e cidadã, uma sociedade socialista.

Outro sentimento que me assalta é de horror. Porque temos que falar disso que nos machucou tanto? Lembro-me de Gorky quando foi perguntado para falar dos horrores que passou na infância. Ele teria dito algo como enquanto toda humanidade não souber do que se passa, a história se repete. Assim, proponho-me a falar um pouco do que se passou.

Nascida no interior de São Paulo, na cidade de Orlândia, morei durante minha adolescência em Ribeirão Preto. Fui para a capital fazer faculdade de Física . Entrei na Universidade de São Paulo em 1964, em pleno golpe. Desde meu ingresso, pude saber que minha vida jamais seria a mesma. Comprometida com o Movimento de Educação de Base, admiradora de Paulo Freire, entrei na JUC (Juventude Universitária Católica),tendo feito parte da Direção Nacional. Participei dos movimentos políticos durante a faculdade, tendo conhecido a violência do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) nos embates na Maria Antônia- a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo ficava na rua Maria Antônia, em frente a Faculdade Makenzie. Também participei da resistência que fizemos em defesa do CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), onde morei durante meu curso na faculdade.

Esses foram anos de uma vivência política muito rica e educativa. Terminei a faculdade, tendo entrado, em 1967, para a então AP (Ação Popular), depois Ação Popular Marxista Leninista porque queria seguir em frente com minhas convicções políticas. Comprometia-me cada vez mais com a melhoria de vida do povo brasileiro e assim identificava-me ideologicamente com as classes populares.

O ano de 1968 foi um marco para mim como o foi para todos aqueles que militavam nessa época. Decidi-me conhecer de perto a vida e a luta da classe operária. Casei-me e fomos morar no ABC. Fui trabalhar, como operária, na Rhódia, fábrica de linhas em Santo André.

Seguindo o caminho de uma vida clandestina vim para Porto Alegre, em 1969, tendo ido trabalhar na fábrica Renner também como operária. Por motivo de segurança resolvi retomar o magistério como nos anos de faculdade, quando lecionava Física. Aqui em Porto Alegre, eu lecionava matemática quando caí presa.

Em 11 de abril de 1972, fui seqüestrada numa parada de ônibus, jogada no banco traseiro de um carro e, aos bofetões, levaram-me para a escuridão das dependências do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) onde fui imediatamente encapuzada. Por ter participado da seção de Serviços (mensageira entre os comandos nacional e regionais) e por ter sido membro do Comando Regional da AP, em Porto Alegre, eu já sabia o que me esperava. Entretanto, nenhum conhecimento teórico pôde antecipar o horror das torturas. Ainda encapuzada conduziram-me para uma sala, onde as primeiras palavras que ouvi foram “Tira a roupa.”.

O delegado Pedro Seelig, chamado por Cacique, junto com Nilo Hervelha e outros, de que ainda não me lembro os nomes, arrancaram minhas roupas, com palavras de depreciação na tentativa clara de baixar minha auto-estima. Perguntaram meu nome e eu disse Nilce Azevedo Cardoso. Vieram então socos de todo os lados. Insistiam na pergunta, com socos na boca do estômago e no tórax. Mal podendo falar, eu disse que meu nome estava na carteira de identidade. Aumentou a violência. Ligaram os fios e vieram os choques . Fiquei muda daí para frente.

Quando paravam os choques, vinham as perguntas. Mas, meu silêncio continuava. Eu só pensava que ali estava terminando minha vida, porque achava que estava morrendo. Com o tórax soqueado, sentindo o sangue na boca, percebi que se movimentavam. Fui colocada no pau de arara.

Conheci o terror da dor física violenta, quase insuportável, e a dor de alma diante daquele horror que eu jamais imaginara que pudesse existir, embora já tivesse lido sobre relatos de torturas. Eram pontapés na cabeça e choques por todo o corpo. Minha indignação cresceu violentamente quando resolveram queimar minha vagina e meu útero. Enfiaram os fios e deram muitos choques. A dor, raiva, ódio, misturados com um sentimento de impotência, criavam-me um quadro assustador. E eu seguia muda. A raiva era tanta que não conseguia gritar, o que veio a me causar muitos danos psíquicos posteriores. Pendurada de cabeça para baixo no pau de arara, a lucidez continuava total. Lembrava-me a todo momento que estava ali em conseqüência de meu compromisso político e, naquele momento, para mim era o fim. Quando eu pensava que estava morrendo, eles me tiravam dali e me entregavam para policias femininas que me obrigavam a me mexer. Eu perdi os movimentos das pernas e dos braços e não conseguia articulá-los. Então elas me arrastavam. Quando achavam que já estava melhor, eles me penduravam novamente. O sangue jorrava e eles enfiavam a mão pela minha vagina com jornais. Colocaram uma bacia no chão e o sangue continuava a cair. Molhavam meu corpo e me arrebentavam com socos e choques. Não sei quanto tempo isso durou nem quantas vezes aconteceu esse ritual macabro. Assombrava-me ao perceber que, nos intervalos, eles comiam, conversavam, como se há instantes não tivessem cometendo aquelas atrocidades.

Para poder escrever o que estou escrevendo tive que ser atendida no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, por um psiquiatra logo na saída da prisão. Fui atendida no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Seguiram-se muitos anos de psicoterapia, principalmente um trabalho de psicopedagogia com a psicopedagoga Alicia Fernández onde iniciei o processo de recuperação da memória. Há quase dez anos entrei em análise, com a psicanalista Miriam Möller, não só para sair de uma amnésia, como para recuperar minha identidade e poder conviver com esse horror todo.

Lembro-me que os gritos dos torturadores foram se tornando cada vez mais fracos e quando me dei conta, estavam me fazendo massagem no coração, possivelmente após uma parada cardíaca. Ali acabaram de quebrar o seio, osso do tórax, como mais tarde vim a saber, após ser tirada radiografia no hospital. Passaram uma luz intensa nos meus olhos, usaram amoníaco para reanimar-me e eu ouvi “Não reage”. Eu já tinha sido examinada pelo médico que indicava quando podiam continuar a tortura. Mas, dessa vez, não foi possível porque entrei em coma.

Fui levada para o Hospital Militar e fiquei em coma oito dias. Depois disso, fui levada para o DOPS novamente. Muito mais magra e uma chaga só, fui colocada no meio de uma roda de companheiros. Senti uma dor violenta. Como estavam ali ? E tantos. Os torturadores me mostravam cada um deles e me perguntavam se eu os conhecia. Eu nada respondia. Passei por todos e não tendo dito que os reconhecia voltei para a sala de torturas. A pancadaria recomeçou, Depois de um tempo percebi que Hervelha não me perguntava nada. Pedi para falar com um de meus companheiros e soube que muita coisa tinha sido dita. Ameaçaram levar-me para o Guaíba (eu conhecia o caso das mãos amarradas…) e, analisando a melhor saída, naquele eu disse “Meu nome é Regina”. E fiz um surto . Completamente descontrolada chorei muitas horas compulsivamente, sentindo-me morta. Eu tinha a convicção de morrer e não dizer nada. A tortura não atinge somente o corpo, mas também a alma e a mente humana. Deram-me algo de remédio e fui me acalmando. Não sei quanto tempo isso durou. Escrevi o relatório com alguns dados. Quando notavam incoerências, buscavam-me novamente para interrogatórios, sempre acompanhados de ameaças de tortura. Assim foi até julho.

Lembro-me que me deram muitos remédios. Eu tinha ficado com muitos problemas. O osso do tórax já estava cicatrizado, embora frágil ainda. Estava com infecção no útero e fui levada numa clínica. Mas havia remédios em demasia. Remédios que me dopavam. Insisto nisso, porque preciso saber mais sobre os efeitos disso.

Assim fui levada para OBAN (no DOI-Codi ) em São Paulo. Lá tiraram-me toda a medicação. Hoje, sei os efeitos disso. Alucinei. Para mim, torturas na OBAN não puderam ser de porradas, porque minha saúde estava frágil. A “equipe de inteligência” deve ter sugerido torturas psicológicas, com a máquina da verdade, pressões de muitas maneiras, já descritas. De uma delas, eu lembro-me agora. Havia uma equipe comandada por Mangabeira, um sujeito muito supersticioso. Ele me levou para “falar com o Diabo”, num ambiente enfumaçado. Hoje, até chego a achar graça, mas, no estado em que estava, era terrificante, porque eu não sabia como viria o golpe. Mas, eu disse que o Diabo que me aparecia não era como o que ele me descrevia e nunca mais fui interrogada por ele.

Posso me lembrar da indescritível tensão que passamos cada vez que chegavam e diziam nosso nome. Daí para frente, o que tentaram fazer foi me desmoralizar como mulher, questionar meus valores, minha inteligência e tudo fizeram para que eu não soubesse distinguir entre realidade e alucinação.

Voltei estranha para o DOPS de Porto Alegre, onde fiquei até chegar meu alvará de soltura, em 20 de julho de 1972. Os gritos dos presos comuns eram contínuos e minha cela ficava bem em cima da sala de torturas . Sentia-me à beira da loucura. Contei com a ajuda de companheiros que estavam presos na cela da frente, principalmente de Diógenes Sobrosa de Souza e de outro que vim a saber agora, que era Djalma de Oliveira. Contei também a forte, amorosa e sensível presença de minha mãe Zilda que, apesar de não saber de minha vida clandestina, apesar de ter sido vítima de terrorismos em sua casa, trouxe o apoio de meus irmãos e esteve sempre presente a meu lado. A pedido de minha mãe fiquei morando com Gilda Souza da Luz, contando com seu apoio até hoje.

Quando estava na OBAN (no DOI-Codi em São Paulo), já pude notar que algo estava acontecendo com minha memória. Logo ao chegar não consegui ligar para minha família, porque não me lembrava dos nomes e telefones. Aos poucos, fui notando um certo apagamento. Já não me lembrava de muita coisa. Quando me dei conta, eu tinha sido tomada por uma amnésia da qual só me recuperei com muita terapia e análise que faço até hoje. Contei com a ajuda fundamental de minha nova família Antônio Norival Soave, com quem me casei após sairmos da prisão. Depois contei com meus filhos, Semíramis e Paulo que têm conseguido conviver comigo, aceitando-me e ajudando-me com amor. Outro sim contei e conto com verdadeiros amigos. Eles sabem compreender-me e aceitar-me.

Quando recebi o alvará de soltura, fiquei sabendo que teria que fazer um documento dizendo que tinha sido bem tratada. Como me recusei voltei para a cela. O delegado me chamou e me pediu que eu escrevesse que tinha entrado com a fratura no tórax, como constava na radiografia. Naturalmente, não aceitei escrever isso. Lembro-me de ter escrito que recebi o atendimento dado aos presos políticos.

Sim, meu pai, continuo achando que valeu a pena. Hoje, felizmente continuo viva e, tendo feito o luto dos companheiros que foram assassinados, sigo em busca de meus sonhos, firme na luta, sabendo que estamos lutando por um causa justa. Um dia a humanidade vai viver numa sociedade em que os homens serão aceitos na sua desigualdade. Haverá paz e justiça social para todos e não haverá nunca mais torturados nem torturadores.

Textos publicados no livro “Relatório Azul”, 1997, da Comissão

Tortura – Nunca Mais!

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Tortura - Nunca Mais!

Tortura – Nunca Mais!

A criminalização da tortura em nosso país é quase tão recente quanto a conquista de nossa democracia. A tortura institucionalizou-se como crime com a Lei 9.455, de 7 de abril de 1997. Antes dela, a tortura era tratada como crime somente quando fosse praticada contra crianças. Contudo, não definia a tortura em termos específicos.

A violência da tortura “é a destruição da essência de alguém”. A caso da violência contida na tortura, é a destruição da humanidade da essência de ser alguém. A tortura apaga os traços definidores de um sujeito. A desumanização dos participantes desse processo se dá à medida que o torturador se coloca acima da condição humana e força o torturado a se colocar na situação abaixo da condição humana.

A tortura é usada como meio para obter informações, mas também para destruir e abalar o psicológico do torturado. Os casos de tortura também gerou um medo coletivo, medo dos porões, do envolvimento com a política, medo da perseguição. A tortura foi um instrumento de coerção amplamente utilizado pelo aparato militar da ditadura. As sessões eram monitoradas pela presença de médicos e enfermeiros nas seções de tortura, cujas intervenções davam o aval ou não para continuar com a violência.

Trazemos esta semana a temática: “Relatos de torturados”. Para tanto precisamos compreender o que é a tortura. Trazemos uma cena que apesar de se tratar de uma novela retrata bem o quadro.

Nesta Cena do filme “Batismo de Sangue” retrata o momento em que dois dominicanos são levados pelos militares. Na sequência, os militares os torturam para saber onde encontrar o líder da ALN, Mariguella.

APERS? Presente, professor! – Esquemas Repressivos e Tortura

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APERS? Presente, professor! –  Esquemas Repressivos e Tortura

APERS? Presente, professor! – Esquemas Repressivos e Tortura

Hoje disponibilizamos a quarta proposta pedagógica do eixo temático A Resistência à Ditadura Civil-militar – das fontes arquivísticas para a sala de aula, 50 anos depois.

Denominada de Esquemas Repressivos e Tortura, essa proposta tem como objetivo auxiliar na compreensão da construção de todo um aparato repressivo que sustentou a ditadura e da utilização da tortura como método sistemático aplicado por esse esquema montado para varrer do território nacional qualquer tipo de oposição ao regime. Para construí- la, a equipe do projeto utilizou como fonte um processo de indenização de um ex-preso político do período, Antônio Pinheiro Salles. Acesse aqui o arquivo da proposta.

Caso o professor tenha interesse em acessar uma cópia na íntegra do fonte utilizada na construção da proposta,Clique Aqui

Desejamos um bom trabalho!

Avó reencontra neto desaparecido na ditadura.

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Laura Estela Carloto

Laura Estela Carloto

Essa semana estamos abordando a temática da tortura, trazemos a seguinte questão: Ficar longe da família, no exxílio na ilegalidade, fugindo da repressão, sendo coagido pelo mêdo também é uma forma de Tortura? Pois quando a Laura uma jovem militante, de um grupo de esquerda argentino chamado de “Montoneros” quando foi sequestrada em sua residência em Buenos Aires. Grávida de dois meses, Laura passou toda gravidez na prisão.

Através de testemunhos, soube-se que Laura permaneceu detida em uma prisão, por motivos políticos, em um local popularmente conhecido como “La Cacha” ou em português “A caixa”. Em 26 de junho de 1978, deu à luz a um menino, ao qual chamou Guido, em um Hospital Militar. Logo após o parto, foi reenviada ao CCD “La Cacha” sem seu bebê. Em 25 de agosto de 1978, a jovem foi assassinada e, em 1985, seus restos foram exumados no cemitério de La Plata e identificados.

carlotto_y_su_nieto_el_especialito.jpg_t670x470O jovem Guido cresceu no seio de outra família e tinha dúvidas sobre sua identidade. Após se comunicar por e-mail com as Avós, para conhecer mais sobre sua origem começou a descobrir pistas de seu passado. Depois de vários intercâmbios de e-mail. Guido entrou em contato com a Associação “Abuelas de Plaza de Mayo” (Avós da praça de Maio), que buscam desaparecidos da época da ditadura na Argentina. A entidade fornece auxilio as pessoas que tem dúvidas sobre sua identidade ou para aqueles que buscam parentes desaparecidos.

Estela de Carlotto B. é coordenadora do projeto junto com o corpo executivo de direção também uma “abuela” que procura o neto. Estela teve a feliz noticia de saber que Guido na verdade era seu neto, filho de Laura.

Estela informou que já pôde ver seu neto. “É bonito. É um artista, é um rapaz bom. E buscou. Ele me buscou. Foi cumprido aquilo que as Avós diziam: ‘Eles vão nos buscar como nós continuamos buscando”. As Avós, como sempre, resguardaram a identidade do neto.

Por último, Estela disse na entrevista, para animar os quase 400 homens e mulheres que ainda vivem com uma identidade falsa: “Que tenham ânimo de saber que os espera a liberdade e o amor. Vamos torná-los livres e serão eles mesmos, com sua própria identidade”.

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