As Forças Armadas deixaram de aproveitar mais uma oportunidade de enfrentar seu passado e contribuir com a vida democrática. Isso por terem novamente negado a verdade frente pedido de esclarecimento feito pela Comissão Nacional da Verdade, ao que responderem que não houve prática de tortura em espaços controlados pelas três Armas. Continuam a negar a violência, a tortura e as mortes cometidas pelo aparato de Estado contra seus cidadãos, em prol de um determinado ideal de sociedade. Ideal que foi construído na articulação entre setores militares e civis, justamente aqueles setores que ocuparam os espaços de poder durante os anos da ditadura. Para ser justo, não são todos militares que negam que praticaram estes atos, mas afirmam que foram realizados por um bom motivo. Esses afirmam que estavam em uma guerra (de um só exército, diga-se de passagem) e que estavam do lado da “democracia”. Deveriam justificar isso a si e aqueles que os rodeavam enquanto massacravam presos políticos, das mais variadas organizações de esquerda, desde os primeiros anos da ditadura. De qualquer forma, esperávamos que a instituição militar, submetida constitucionalmente ao controle civil (de onde deveria emanar todo o poder do Estado), oficialmente expusesse o que ocorreu e ajudasse a tornar mais claros casos ainda não resolvidos. Contudo, mantém-se com cínica negação de suas práticas, já comprovadas tanto quanto possível (de acordo com a fracionada documentação acessível) e por diversas organizações, que lutam a anos pela Memória, Verdade e Justiça.
     O projeto Brasil Nunca Mais, desenvolvido em conjunto por advogados e grupos religiosos (apoiados pelo Conselho Mundial de Igrejas), buscou, a partir de 1979, produzir cópias dos processos existentes no Superior Tribunal Militar, para que não se perdessem e pudessem ser base para a produção de uma obra de denúncia. Os advogados utilizaram do direito de retirar os processos por vinte e quatro horas para vistas, para produzir cópias, que, em seguida, eram enviadas para São Paulo. Conforme o site Brasil Nunca Mais digit@l: “Aproximadamente após seis anos de trabalho em sigilo, a tarefa foi finalizada. A reprodução dos 710 processos judiciais consultados totalizou cerca de 900 mil cópias em papel e 543 rolos de microfilmes. Ademais, foi produzido um documento-mãe, denominado “Projeto A”, com a análise e a catalogação das informações constantes dos autos dos processos judiciais em 6.891 páginas divididas em 12 volumes.” O Projeto A pode ser encontrado digitalizado em sua totalidade no site . No Tomo V – Volume 1: A Tortura, podemos encontrar uma lista de espaços utilizados para a tortura no Rio Grande do Sul, conforme as informações contidas nos processos, principalmente nos depoimentos dos presos políticos. Ainda que não majoritários, encontramos indícios de terem sido utilizados espaços administrados pelas Forças Armadas para esses fins.
        A Comissão Nacional da Verdade foi uma das últimas organizações a tencionar essa questão, ao encaminhar um pedido de esclarecimento às três Armas, quanto a utilização de espaços físicos por elas geridos para a prática de tortura. Solicitou a abertura de sindicâncias internas para pesquisar e apresentar respostas. Após semanas afirmaram que não houve qualquer tipo de irregularidade e de alteração das funções dos espaços por elas administrados. Frente a essa resposta torpe, a CNV encaminhou um pedido de esclarecimentos ao Ministério da Defesa, responsável civil pelas irresponsáveis Forças Armadas, ao menos quando encaram a história do período. Assim, a CNV pede que sejam dadas algumas explicações coerentes com o que já se sabe, portanto, que não neguem os depoimentos de milhares de pessoas que sofreram direta e indiretamente com o terror do Estado, que sabem, que foram obrigadas a (sobre)viver nos porões da ditadura. Claro, não nos devemos esquecer dos depoimentos de alguns ex-torturadores que relataram suas práticas, quando na ativa (podemos citar o caso recente do depoimento prestado por Paulo Malhães à CNV, em 27 de março https://www.youtube.com/watch?v=e2SnsSYG7O0).
     Somente por essa breve exposição podemos perceber quão grave é a situação. Além de tantas heranças impostas, aparentemente se mantém Forças Armadas que não servem os cidadãos, o que deveria dar sentido às suas ações. É fundamental que nossa sociedade, como um todo, enfrente o período da ditadura. Sendo coerentes não podemos atribuir todos os males de nossa sociedade à ditadura, mas não podemos deixar de compreender as transformações do período, principalmente observando a quem serviam. No trabalho educacional percebemos que os alunos carregam grande desconhecimento sobre o passado nacional, principalmente do que poderia ser compreendido como História do tempo presente. Isso resulta que não tenham as ferramentas necessárias para se compreenderem como sujeitos nesse processo, assim como para compreender as influências que tocam suas vidas. Democracia não é apenas uma forma de governo, mas é um prática constante, que deveria atingir muitos âmbitos de nossas vidas. Acreditamos que essa prática se constrói com educação, principalmente com educação crítica, que não fuja de questões essenciais, ainda que delicadas. Criticamos a postura anti-democrática e profundamente conservadora dos maiores representantes das Forças Armadas, mas não podemos deixar de criticar os governos eleitos após a redemocratização, por não terem enfrentado com a devida seriedade as questões referentes à ditadura. Não nos parece que qualquer problema é resolvido de fato com a negação do problema, com sua superação mais virtual que real.

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