A discussão sobre a natureza dos movimentos sociais é bastante extensa, portanto, apresentaremos alguns pontos que parecem ser importantes para nosso objetivo e, assim, deixaremos de trabalhar com outros. Compreendemos os movimentos sociais como grupos organizados sob determinadas causas comuns, que são reivindicadas frente ao Estado, normalmente. As causas comuns podem ser muito complexas, demandando um projeto de longo prazo, ou apresentarem pontos bastantes específicos. Também podem ser objetivos bem claros, ou um pouco mais difusos e confusos. A variedade de formas e conteúdo é grande, mas normalmente representam bem as disputas da época em que vem a tona.

O processo de abertura política, iniciada por Geisel em 1974, deveria ocorrer de forma “lenta, gradual e restrita”. Não podemos dizer que não ocorreu dessa forma, porém, não deve ter sido exatamente da forma como seus planejadores desejariam. A década que se seguiu esteve marcada pela retomada de atividades de organizações da sociedade civil, trazendo reivindicações novas e, também, outras não tão novas. Não seria possível represar pela repressão a sociedade, ainda mais com os evidentes fracassos obtidos pelo governo: limites do “milagre econômico” começam a se tornar evidentes, a partir de 1973; assim como se torna evidente que a ditadura sempre esteve baseada na violência (que passou a atingir outros setores além dos tradicionalmente marginalizados). Assim, cria-se cada vez mais forte pela oposição ao autoritarismo, pela defesa da democracia de base e o respeito à diversidade e à solidariedade. Novos movimentos sociais surgem com a participação de diversos atores, como setores da Igreja, entidades profissionais, partidos de esquerda, porém, é o “novo sindicalismo” o grande dínamo, por sua força e abrangência. Sindicatos e centrais sindicais lentamente vão sendo reorganizadas, voltando a trazer as pautas dos trabalhadores para a ordem do dia. Depois de anos de repressão política e diminuição dos salários, os trabalhadores voltam à cena política com força cada vez maior.

A seguir indicamos um documentário que trata da campanha pela Anistia, que congregou diversos atores sociais frente uma causa comum.

(parte 1)

(parte 2) 

A reorganização da sociedade civil não ocorria somente nos centros mais dinâmicos do país (sobretudo no Rio e em São Paulo). No Rio Grande do Sul ocorrem importantes eventos que marcam o período, inclusive dentro do cenário nacional. São eles: a greve do magistério estadual de 1979, que garante aumento dos salários dos professores, porém, também é marcada pelo apoio que recebeu de diversas organizações; greve dos bancários de Porto Alegre, que reprimida pela prisão de lideranças e intervenção no sindicato. Apesar disso, apresentaram os limites das intenções de abertura do regime, além de provocar a solidariedade de outros setores; greve dos trabalhadores da construção civil, a categoria sofria com o desaquecimento das construções, o que tornava menos estável e mais fragilizado o trabalho. A greve é duramente reprimida, mas acaba sendo a que mais dura: de 13 a 27 de agosto de 1979. Por fim, parte das reivindicações são atendidas, recebendo aumento de 15% e algumas garantias de estabilidade; greve dos operários da indústria dos vestuários, em 1979, recebeu apoio de muitos trabalhadores, de diversas indústrias de Porto Alegre e região metropolitana. Os grevistas conseguiram parte dos reajustes que solicitavam, mas não sem grande tensão. Alguns empresários solicitavam maior rigor no enfrentamento à greve, inclusive com intervenções das Forças Armadas.

Referências bibliográficas:

Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): história e memória: http://marxists.org/portugues/tematica/livros/ditadura/pdf/ditadura_04.pdf

SOARES, Vânia Fonseca. A abertura política e os movimentos sociais em Porto Alegre (1979-1985): http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/2083/000314055.pdf?sequence=1

SOARES DO BEM, Arim. A centralidade dos movimentos sociais na articulação entre o Estado e a Sociedade brasileira nos séculos XIX e XX: http://www.scielo.br/pdf/es/v27n97/a04v2797.pdf

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