A partir de 1985, o Brasil deixou de ter presidentes militares no comando da máquina estatal, porém, esta máquina não deixou de ser a que fora criada pela ditadura. Questiona-se, ainda hoje, se superamos suas piores heranças. Na segunda metade da década de 80, a abertura ocorria, os militares voltavam à caserna, mas a reconstrução do Estado apenas começava. Nosso primeiro presidente civil veio de uma eleição indireta, através de um Colégio Eleitoral. Esse modelo de eleições foi resultado da vitória dos setores mais conservadores (ligados ou não ao regime militar) contra os anseios da população, que pressionavam constantemente pela realização de eleições diretas à presidente. Essas eleições apenas ocorreram em 1989, sendo uma grande novidade, visto que fora a primeira eleição direta para presidente em quase 30 anos. O debate fora intenso no primeiro turno, sendo levado ao segundo turno dois candidatos que carregavam a promessa de mudança do que havia até então na vida política. Passam a se enfrentar duas percepções políticas, divergentes em muitos aspectos: Lula se apresentava com um projeto ligado aos setores populares e aos novos movimentos sociais; Collor acabou sendo o candidato a receber o apoio dos setores mais conservadores do país, que temiam transformações mais profundas. O projeto defendido por Collor acaba sendo eleito, apesar da pouca representatividade de seu partido. Porém, talvez, o que mais importou para seus apoiadores foi a derrota do projeto defendido por Lula.

Contudo, entre a eleição indireta do primeiro presidente civil e a eleição do primeiro eleito diretamente (que viria a ser o primeiro a sofrer o impeachment, em 1992), temos a promulgação da Constituição Brasileira. Ocorreu através de uma Assembléia Nacional Constituinte, instituída por determinação do Executivo (comandado por Sarney, antigo membro da ARENA), iniciada em fevereiro de 1987 e encerrada em setembro de 1988. Fora composta pelos 559 deputados federais eleitos em 1986, portanto, a composição seguiu as disputas políticas tradicionais. A Constituinte tornou-se um dos principais centros de poder e decisão do período, sendo palco de constantes disputas e duras disputas. A Constituinte era vista com muita esperança, pois era tida como a passagem de saída do período ditatorial e por ter tido significativa participação popular em sua formulação. Foram instituídos alguns mecanismos para participação popular, como a possibilidade de apresentação de emendas populares. Além disso, foi importante a pressão exercida em muitos meios, inclusive lotando as galerias da Câmara dos Deputados. Essa participação foi fundamental para construir uma Carta Magna considerada bastante progressista, a ponto de ser apelidada de “Constituição Cidadã”. Contudo, apesar de apresentar diversos pontos positivos, não mudaria de pronto a realidade social e econômica do país. Indicamos um documentário produzido pela TV Senado, que traz depoimentos (desde o ministro dos governos militares, Jarbas Passarinho até o de uma importante liderança da esquerda, Plínio de Arruda) e imagens de época, que conseguem transmitir um pouco do fervilhar político e social que envolveu a sociedade brasileira no período:

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