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Movimentos Sociais Diversos em Não Calo, grito: memória visual da ditadura civil-militar no Rio Grande do Sul

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No mês de outubro, a equipe responsável pela elaboração das postagens veiculadas no Blog Resistência em Arquivo, tentou contemplar conteúdos e discussões que problematizem o período da Redemocratização no Brasil. Nesse caminho, publicamos matérias sobre a reorganização partidária e a luta por eleições diretas para presidente no ano de 1980, que ficou conhecida pelo movimento Diretas Já. Produzimos textos sobre a reorganização dos movimentos sindicais e sobre o feminismo e, ainda, aventuramo-nos na complexa discussão acerca das rupturas e permanências vividas nesse período de transição da ditadura civil-militar para a democracia.

            Encerramos essa série de postagens, lembramos um dos Movimentos Sociais mais significativos na história recente do nosso país, o Movimento dos Sem Terra (MST). Responsável por agregar parcela significativa de trabalhadores do campo que reivindicam o direito a terra e o direito de nela produzir, tal movimento se transformoNão calo gritou em um importante agente da luta dos trabalhadores rurais junto ao estado e as políticas agrárias por ele construídas.

            E como forma de retomar muitos desse elementos, vamos hoje sugerir uma leitura e o manuseio de um material riquíssimo que trabalha com muitas dessas discussões. Trata-se da obra, escrita pelos historiadores Diesnstmann, Guazelli e Rodeghero, Não Calo, grito: memória visual da ditadura civil-militar no Rio Grande do Sul. Nela vamos encontrar, além de textos bastante acessíveis de muita qualidade, excelentes e intrigantes imagens (fotos, cartazes, charges…) que retratam tal contexto no Rio Grande do Sul.

Movimento Estudantil

Movimento EstudantilA segunda metade da década de 1970 foi marcada pelo processo de reconquista das ruas para as manifestações populares. Os protagonistas dessa nova ou renovada forma de fazer política foram os estudantes, através das entidades estudantis. Sua ação acabou servindo como exemplo que foi seguido, logo depois, por outros setores ou organizações da sociedade civil.[…] os estudantes procuraram reorganizar as entidades que representavam suas demandas: a UNE e as UEEs. O movimento estudantil gaúcho também se envolveu em outras campanhas do período, contribuindo significativamente para a luta pela anistia e dando apoio as demandas sindicais de trabalhadores.

Movimento Sindical urbano

Na segunda metade da década de 1970, o movimento sindical, ao lado do Movimento Sindicalmovimento estudantil, passou a ter grande importância na esfera nacional e se tornou um dos principais protagonistas na luta pela redemocratização. Diversas categorias de trabalhadores se mobilizaram e promoveram ondas de greves, confrontando a política de abertura e o arrocho salarial. Dentro dos sindicatos, começaram a surgir novas lideranças e novas bandeiras de luta, como a defesa do direito á autonomia e à organização das entidades sem a interferência estatal. No ano de 1979, mais de três milhões de trabalhadores entraram em greve em todo o Brasil, com o Rio Grande do Sul entre os grandes protagonistas dessas mobilizações. […] Nesse processo de transformações no meio sindical, dois grupos diferentes se fortaleceram e ascenderam às diretorias: a Unidade Sindical, formada por setores da esquerda “tradicional”, como o PCB, o PCdoB, o MR-8; e o autodenominado “sindicalismo combativo” ou “novo sindicalismo”, identificado com as correntes que surgiram no contexto grevista do final dos anos 1970 e que depois veio a desembocar no PT e na Central única dos Trabalhadores (CUT).

Movimentos Sociais do Campo

Movimento Trabalhadoras Rurais (1)A organização dos trabalhadores rurais sem-terra adquiriu grande importância no contexto de retomada dos movimentos sociais no final da década de 1970. a exclusão de um grande número de trabalhadores do acesso à terra foi impulsionada pelo processo de modernização e capitalização das atividades agrícolas ocorridas ao longo da ditadura. No Rio Grande do Sul, a modernização pelo acesso à terra passou a marcar a vida política a partir de 1978 e pôs a região norte do estado no centro de grandes lutas sociais.[…] Em janeiro de 1984, ocorreu o 1° Encontro Nacional dos Trabalhadores Sem Terra, com o objetivo de promover trocas entre experiências que haviam ocorrido no Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso e Santa Catarina. Nesse encontro foi fundado o MST, que aos poucos ganhou adesões em diversas regiões do país. […] Merece relevo também a mobilização das mulheres trabalhadoras rurais gaúchas em busca de direitos e cidadania, que ganhou força na década de 1980. Partindo dos sindicatos de trabalhadores rurais, foi organizado ao longo dessa década o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR).

Os “novos” movimento sociais

Surgidos ao longo da década de 1970, especialmente nos seus últimos anos, diversos movimentos sociais passaram a levantar novas demandas e propor novas formas de participação política e social. Entre eles, destacamos as mobilizações contra o aumento do custo de vida, a defesa do meio ambiente, a defesa dos direitos humanos, o feminismo e o movimento negro.

Movimento MulheresMovimento NegroMovimento Ambientalista

Fizemos um pequeno recorte do conteúdo do livro e das dezenas de imagens que nele constam. Indicamos sua leitura na íntegra. Também apontamos o potencial pedagógico que reside nas imagens selecionadas para fazerem parte dessa obra. Inclusive, sua produção foi pensada nesse sentido, tanto que acompanha o livro, um Caderno Pedagógico com sugestões de atividades para serem realizadas em sala de aula. Com essa indicação, portanto, encerramos as postagens de conteúdos referentes ao período da redemocratização.

Bibliografia:

DIENSTMANN, Gabriel; GUAZELLI, Dante Guimarães; RODEGHERO, Carla Simone. Não calo, grito: memória visual da ditadura civil-militar no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2013.

Questão agrária e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

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Foto: Sebastião Salgado (Terra)

O Brasil é um país que se especializou na exportação de matérias primas: minerais, animais e vegetais. Desde o começo da exploração estrangeira a maior parte da produção é voltada para os mercados de além mar. Com o avanço da industrialização e urbanização, nas últimas décadas, o mercado interno ganhou mais importância, sobretudo com o estímulo do consumo interno, porém, a exportação de commodities ainda continua a ser uma das bases da economia brasileira. No âmbito da agricultura, a maior parte da produção voltada à exportação provém de grandes propriedades rurais, enquanto o consumo interno tem a maior parte da produção realizada pelas pequenas e médias propriedades rurais. Essa situação ainda deixa a marca de uma contradição lamentável: um dos países de maior território e de grande produção agropastoril vivia marcado pela fome de grande parte de sua população. De qualquer forma, nos parece fundamental continuar e aprofundar as discussões sobre a realidade rural de nosso país, pois ainda são latentes os impasses estruturais e sociais advindos da forma como ocorre a produção e a divisão da terra. Impasses que continuam a gerar conflitos e mortes pelo interior de nosso país¹.

Francisco Julião

Francisco Julião – Ligas Camponesas

Assim como a brutal desigualdade econômica e de posse da terra, a Reforma Agrária existe, no âmbito político, como pauta constante há bastante tempo. De forma clara, desde o final da década de 50 e inicio da de 60 aparece nas pautas do dia [site INCRA: http://www.incra.gov.br/reformaagraria_historia]. Com João Goulart a questão tomou grandes proporções, sendo rechaçada frontalmente pelos setores mais conservadores do país, sobretudo os interessados diretos na manutenção da situação agrária. Grande tensão é criada sobre esse tema, sendo uma das principais frentes de enfrentamento de setores sociais e políticos, com seus respectivos projetos de país. É notável a presença das Ligas Camponesas, que  surgiram como grande movimento social do campo, assim como algumas ações do governo de Goulart, como a criação da Superintendência de Reforma Agrária (SUPRA). A tensão social e política é resolvida de forma autoritária, através do golpe civil-militar que irrompe em nosso país. Os movimentos sociais camponeses receberam semelhante tratamento que as organizações urbanas: intensificação da repressão e do controle. Tomemos como referência o depoimento de Francisco Julião, deputado federal e líder das Ligas Camponesas:

Imediatamente após o golpe, [a Liga Camponesa] foi posta na ilegalidade e começaram a perseguir e prender camponeses e assassinaram vários, enforcaram, queimaram… (…) Pedro Fazendeiro, da Liga de Sapé, na Paraíba, foi pendurado numa árvore e queimado com gasolina pelos grandes latifundiários da região. (p. 23)²

Deve ficar claro, contudo, que a violência no campo é muito anterior ao golpe, sendo historicamente uma das principais formas de responder aos impasses sociais. Devemos considerar que ocorre pela ação direta do Estado, mas, principalmente, pelas forças paramilitares dos grandes proprietários rurais. Essa tradição brasileira apresenta continuidade, mas também o é o silenciamento, que ocorre devido ao isolamento ou distanciamento geográfico – e social -, mas também à forma fragmentária que frequentemente ocorre. Claro, isso sem considerar a pouca consideração dada pelos meios de comunicação de nosso país. Durante o período de 1964 até 1989, segundo a Comissão Pastoral da Terra, foram 1.566 trabalhadores rurais assassinados, sendo que apenas 17 dos casos foram julgados. A Reforma Agrária durante a Ditadura não avançou muito além das letras mortas na legislação criada no período. Foram mais efetivos os programas de colonização do Nordeste e, principalmente, Norte.

O MST é fundado em 1984, em Cascável, no Paraná. Segundo Carter³ o MST surge no sul do país devido a alguns elementos que confluem para isso: experiência dos movimentos de agricultores sem terra nos anos 50 e 60, com especial significado para o período do governo Brizola no Rio Grande do Sul; crescente marginalização de pequenos agricultores, expulsos pela expansão de grandes propriedades e de novas tecnologias; a construção de hidrelétricas na região expulsou muitos pequenos agricultores de suas terras; aproveitamento do espaço proporcionado pela abertura política do fim da ditadura; por fim, a participação de setores da Igreja Católica, sobretudo às frações ligadas à Teologia da Libertação. A partir dos anos 90 o MST expandiu sua atuação para as demais regiões do país, deixando de atuar somente na região Sul. Passou a ser uma das organizações rurais mais importantes da América Latina, indispensável quando se discute a experiência de luta por terra. O autor indica possíveis explicações para esse destaque: grande quantidade de pessoas envolvidas, cerca de 1 milhão; atuação abrangente e criativa, como a criação de cooperativas para agregar renda às famílias; organização nacional e regional coesas, porém, sem ser inflexível; ênfase fundamental na educação, tendo atualmente cerca de 160.000 crianças matriculadas nas escolas criadas pelo MST; forte apoio de diversas organizações da sociedade civil, brasileiras e estrangeiras; razoável estrutura e condições administrativas; alem de grande envolvimento de seus apoiadores e membros.

“As Castanheiras de Eldorado dos Carajás” – monumento remete ao assassinato de 19 camponeses do MST em 1996 (ver mais)

Foto: Sebastião Salgado (Terra)

A situação agrária brasileira continua sendo uma grande dificuldade para a implementação de um desenvolvimento econômico e social mais inclusivo e democrático. Podemos ver isso pelo crescimento dos conflitos violentos em áreas rurais, mas também pelo crescimento dos representantes dos latifúndios no Legislativo. O MST permanece sendo uma importante organização que pressiona, de forma incisiva, o Estado para que crie condições para a implementação de outra política rural. Alguns autores afirmam, em diversos momentos, que o MST age de forma antidemocrática, principalmente pela forma dura com que faz o enfrentamento a vários interesses de setores poderosos e conservadores. Carter (2006) defende que essa atuação dura é indispensável, visto que outros meios não atingiriam a mesma efetividade. Compreende que o MST apresentou e representa (na redemocratização e no presente), um fundamental papel na construção de uma democracia mais efetiva, por ter dado condições de expressão e luta para um setor fundamental da sociedade brasileira. Concordamos com essa compreensão, que parece fazer uma análise coerente com a realidade e dos desafios que devem ser enfrentados em nosso país. A questão agrária não iniciou no período da Ditadura Civil-Militar, mas teve reforçado seu caráter autoritário e violento, em favor dos interesses de determinado setor social. Nos parece bastante cínica as constantes críticas feitas por grande parte da mídia e pelos proprietários rurais à atuação do MST, porque silenciam sobre diversos temas que lhes são incômodos: sobre a violência histórica, sobre a exploração constante, sobre a injustiça completa a que foram submetidas a população pobre rural, sobre o projeto ambiental e social que defendem implicitamente. A luta do MST (assim como de outras organizações de agricultura familiar) é fundamental para podermos avançar na construção de uma sociedade que realmente aspire à democracia e a um desenvolvimento econômico que seja sustentável social e ambientalmente.

Ao terminarmos a escrita dessa postagem nos deparamos com interessante coincidência. A Igreja Católica, através de seu pontífice, afirma a importância de enfrentar as dificuldades e construir um projeto de reforma agrária. O papa Francisco afirmou que “A reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral”. Indicamos a leitura de reportagens que trataram sobre isso: MST (30/10/14); Rede Brasil Atual (29/10/14); EXAME (28/10/14)

Por fim, indicamos o documentário Terra para Rose, que retrata de perto os desafios e sonhos de alguns desses pequenos agricultores. O site do MST apresenta a seguinte descrição: “Rose sonhou com a conquista da terra, com um futuro melhor para o seu filho. Como todas as outras mulheres das mil famílias que invadiram a Fazenda Anoni, no Rio Grande do Sul, em 1985, Rose aprendeu a compartilhar seu destino com a mesma força com que sonhava. O desejo comum dos sem-terra era para ela mais do que apenas ser solidário na mesma luta. E Rose faltou de Reforma Agrária enquanto amamentava o filho, fazia comida ou ajudava no acampamento. Emoção de verdade é a tônica deste documentário que traz imagens fortes. Imagens das 8 mil pessoas enfrentaram o frio, a fome e as tropas militares enquanto lutavam por um pedaço de terra para plantar. Um filme de Tetê Moraes”

1. Reportagem sobre conflitos e violência no campo: http://www.sul21.com.br/jornal/a-violencia-no-campo-no-brasil-questoes-e-dados-para-o-debate-por-sergio-botton-barcellos/

2. Livro: Retrato da Repressão Política no Campo – Brasil 1962 – 1985: camponeses mortos, torturados e desaparecidos – http://marxists.org/portugues/tematica/livros/diversos/campo.pdf

3. CARTER, Miguel. O movimento dos trabalhadores rurais sem-terra (MST) e a democracia no Brasil . AGRÁRIA, São Paulo, Nº 4, pp. 124-164, 2006 – http://revistas.usp.br/agraria/article/view/102/102

Legendas

Feminismo

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Sem títuloAo tratar do feminismo, como um movimento assim identificado, no contexto político de redemocratização do Brasil, damos um passo indispensável para o exercício da memória de nossa sociedade. Com este exercício, compreendemos uma categoria de análise que nos ajuda a identificar transformações históricas diretamente relacionadas à vida das mulheres e dos homens. Esta categoria tem sido tratada pela literatura como gênero.

A questão de gênero, mais além das categorias biológicas sexuais (homem e mulher, que condicionaram o pensamento tradicional de forma excludente, naturalizando a heteronormatividade), possibilita uma análise da própria construção e reprodução das identidades relacionadas às orientações sexuais de variados grupos, de diferentes classes sociais e raças/etnias, a partir do entendimento que os grupos de indivíduos fazem das suas próprias identidades. (“Além do fato de ser biologicamente homem ou mulher, o que significa ser homem ou ser mulher para nossa sociedade? Quais modelos hegemônicos de masculinidade e de feminilidade operam em nossa sociedade?”) Ou seja, não poderíamos então compreender as transformações sociais observando apenas com um recorte de gênero, sem relacioná-lo de forma transversal, com outros elementos identitários tão importantes quanto, principalmente as identidades étnicas e as identidades referentes às classes sociais, pois configuram diferentes práticas identitárias; diferentes “possibilidades de ser”; e suas inter-relações de poder.

Podemos afirmar que o movimento feminista no Brasil consolidou-se como movimento nacional no contexto de luta contra a ditadura militar, que ocorria na América Latina em meados dos anos 70. Neste momento espalhavam-se ideias feministas em âmbito global, caracterizando a chamada segunda onda feminista, que diferenciou-se da primeira onda feminista por não representar reivindicações políticas apenas das mulheres da alta sociedade, como ocorrera no século XIX, inclusive no Brasil. A segunda onda estaria mais voltada a um pensamento crítico aos sistemas vigentes, mais interessado em popularizar-se pela ideia da igualdade universal, não apenas por direitos políticos iguais aos dos homens, mas por mais igualdades entre os homens e as mulheres.

Sem título

A terceira onda feminista, ou feminismo da diferença, aparece em meados dos anos 80 como resultado de um exercício intelectual pós-crítico, com olhos para as diferenças. Apresenta críticas àquela igualdade idealizada, que é na realidade o discurso dominante falando pelos subalternos invisibilizados. (O termo “homem”, quando representa todos os seres humanos a partir dos anseios do próprio homem dominante; ou a mulher da elite que, em sua fala, pretende representar uma totalidade das mulheres) Aqui surge o conceito de gênero como categoria de análise para trabalhar a compreensão das diferenças, tanto entre homens e mulheres como entre diferentes tipos de homens e diferentes tipos de mulheres.Sem título

Novos Partidos Políticos

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O processo de redemocratização ocorreu pela pressão constante exercida por diversos setores da sociedade, de diversas formas distintas. Vários desses grupos utilizaram a estrutura do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), que era o partido político permitido durante a vigência do bipartidarismo. Apesar dos limites impostos pela Ditadura, através desse partido havia a possibilidade de certa ação e organização da oposição. É possível compreender que a presença parlamentar do MDB serviu de contraponto fundamental aos setores que apoiavam a Ditadura e a própria ação desta. Maria Moreira Alves no seu clássico livro Estado e Oposição no Brasil (1964-1985), afirma que todo a Ditadura se configurou pelo constante conflito entre o projeto investido após o golpe e setores que resistiam a ele, mas destaca a importância da atuação parlamentar, através do MDB. Independente dessa análise possível, o bipartidarismo é extinto em 1979, passando a vigorar o pluripartidarismo. Alguns autores consideram que essa foi uma medida feita pelo regime para poder dividir a oposição, afim de estender um pouco mais o domínio dos setores ligados à Ditadura nas eleições estaduais que iriam ocorrer. A Ditadura cumpriu sua promessa de realizar uma “abertura lenta, gradual e segura”, não dando possibilidades para os novos partidos assumirem prontamente o protagonismo das decisões políticas nacionais.

A sociedade progressivamente passa a se reorganizar em volta dos partidos políticos, que representavam distintos interesses e projetos de país (como o fazem os partidos políticos). Do MDB partem muitos dos integrantes que irão formar o PMDB, PDT, PTB e PT, no período final de 1979 e durante 1980. Também neste ano é fundado o PDS, partido herdeiro da ARENA, defensora dos interesses do regime militar. Obviamente a atuação dos partidos seguia de forma mais ou menos pragmáticas os interesses de seus integrantes, que muitas vezes não são expostos publicamente. Além de que a atuação pode ser distinta da sua prática. Porém, de qualquer forma, buscam apresentar um discurso à sociedade afim de legitimar sua atuação. A seguir, buscaremos apresentar dois trechos retirados do Jornal Folha de São Paulo, algumas linhas sobre a compreensão dos novos partidos sobre sua atuação dentro de uma nova conjuntura. Nos limitaremos a expor a exposição sobre o PT, por ser o partido a trazer mais novidades programáticas e sociais e, em seguida, um trecho sobre o PDS, que se manteve como baluarte do regime. Também compreendemos que foram os dois partidos a proporcionarem maior polarização ideológica, o que nos ajuda a perceber qual era o cenário em que ocorriam as discussões no período.

PT, por José Álvaro Moisés:

“Pela primeira vez, depois de muito tempo, os trabalhadores e outros setores populares colocam diante da tarefa de buscar definir e tratar de construir uma versão de democracia que atenda aos seus interesses. É uma tarefa imensa, nova e cheia de dificuldades. passa por muitas vicissitudes e a sua grande atualidade está em que não se espera que ela seja definida pelos outros, nem que ela tenha data a aguardar. Ela começa já, aqui e agora, a partir das lutas de todo dia. Por isso, ela não depende só dos grandes momentos, nem exclusivamente das disputas eleitorais. é uma luta permanente.”

“É inegável que o novo MDB – se realmente lograr se constituir – poderá ter uma função importante na construção da democracia no País (como, aliás, o indicam as suas lutas de todos esses anos). Mas por que insistir em jogar um papel que o tempo, e a própria evolução das coisas, mostrou que ele não pode desempenhar? Por que não admitir, realisticamente, que a frente das oposições (ou “aliança” social, se se quiser) poderá se reconstituir, em condições bastante mais apropriadas, desde que os seus integrantes assumam, claramente, a sua identidade própria? Ou seja, desde que eles se constituam, livremente, em partidos ou em propostas políticas? Nesse quadro, o PMDB tem o seu papel. Mas ele não substitui, por nada, a função que está destinada ao PT. Pois este nasceu para trazer para a política aqueles que sempre estiveram fora dela, mesmo depois que o antigo MDB se tornou o depositário da preferência eleitoral da massas populares.”

PDS, por José Sarney:

“Ao partido do governo cabe formular um plano de ação partidária profundamente comprometido com o real, enquanto à oposição pode se permitir formulações pouco reais, embora muito políticas. Foi constante preocupação dos que elaboraram a proposta do manifesto do Partido Democrático Social o viver real, o nosso momento histórico, as mais legítimas aspirações do povo brasileiro. Propomos corretivos estratégicos e táticos para atender ao desejo de reforma e transformação de nossa sociedade, o desenvolvimento sem desfigurar o perfil histórico da Nação, garantindo as liberdades civis, os direitos humanos e a harmonia dos diversos segmentos da população.”

“Um partido necessita de doutrina, organização e liderança. A proposta do Partido Democrático Social importa num compromisso com a democracia social. Democrático porque seu chão é a democracia, por ser livre, aberto ao exercício perene do debate interno e, liberto de mandos. Social por completar o democrático, ao defender não somente as liberdades subjetivas, mas os direitos e garantias sociais contra a fome, o medo, as doenças, o desemprego, a miséria, a perseguição religiosa e a violência da privacidade dos cidadãos.”

“Nossa proposta partidária é a de não submeter-se a pressões ideológicas de direita e de esquerda, fugindo ao conservadorismo estático e ao revolucionarismo autoritário e aético. Nenhuma concessão à acomodação e ao imobilismo, sem, contudo, pregar o desmoronamento das estruturas nem desmerecer a tradição dos grandes homens que fizeram a Nação. Reformista, sim, por vivermos numa sociedade em transformação e reconheceremos a necessidade de novas conquistas sociais capazes de estabelecer uma sociedade mais justa e mais humana.”

“O partido Democrático Social lutará, portanto, pelo homem, em sua dimensão humana e social. A democracia não opera com verdades absolutas ou formas acabadas. Muito foi feito e muito ainda resta a fazer. O PDS é um chamamento à participação dos brasileiros na atividade partidária, dentro de uma agremiação moderna que pensa no futuro. Agora, partiremos para a definição de sua estrutura, uma organização aberta e democrática. A complexidade do País exige Instituições políticas vigorosas capazes de operar esta grande Nação democrática. Esta a nossa proposta: reforma e transformação. Progresso dentro da liberdade, através do diálogo e da paz social.”

APERS? Presente, professor! – O Processo de Redemocratização: Rupturas e Permanências

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Hoje disponibilizamos a sexta proposta pedagógica do eixo temático A Resistência à Ditadura Civil-militar – das fontes arquivísticas para a sala de aula, 50 anos depois.

Denominada de O Processo de Redemocratização: Rupturas e Permanências, essa proposta tem como objetivo auxiliar na compreensão do processo de redemocratização vivido pelo Brasil na transição da ditadura para a democracia. Para construí- la, a equipe do projeto utilizou como fonte dois processos de indenização de ex-presos políticos do período, Inácio da Silva Mafra e de Antônio Cunha Losada.

Acesse aqui o arquivo da proposta.

Permanências – O que resta da Ditadura

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Nos anos 70, durante a ditadura militar, presos políticos e presos comuns acusados de assalto a banco estavam submetidos à Lei de Segurança Nacional. Cumpriam pena nas mesmas prisões.
Este filme se inspira no encontro destes dois mundos.”

Com este parágrafo inicia o filme Quase Dois Irmãos (2005), de Lúcia Murat, mostrando como se encontram e se relacionam duas trajetórias bastante distintas, tendo como pano de fundo o contexto político brasileiro desde os anos 50. Este filme é muito interessante pois nos ajuda a compreender como as instituições estatais mantiveram seu caráter “contrarrevolucionário”, reproduzindo, ainda hoje, aspectos de uma organização baseada na repressão, na violência, na intolerância e no medo. Se a abertura do sistema político, de uma ditadura militar à democracia que vivemos hoje, foi possível de forma “lenta, gradual e segura”, foi para que muitas coisas se mantivessem intactas, sendo consideradas ainda hoje, infelizmente, como necessárias e imutáveis. Um bom exemplo deste processo está no funcionamento das forças policiais e no sistema carcerário do Brasil.

Para alimentar a reflexão, sugerimos que assistam ao filme:

Além do filme, sugerimos também a leitura do livro “O que resta da ditadura: a exceção brasileira” de Edson Teles e Vladimir Safatle (Clique aqui), do qual apresentamos o trecho a seguir:

Até mesmo as cadeias em que se apodrecia até a morte – como a colônia correcional de Ilha Grande, que foi apresentada a um Graciliano Ramos atônito como um lugar no qual se ingressa, não para ser corrigido, mas para morrer – tampouco anunciam uma “Casa da Morte”, como a de Petrópolis e similares espalhadas pelo país e pelo Cone Sul. Basta o enunciado macabro das analogias para se ter a visão histórica direta da abissal diferença de época. O calafrio de Graciliano, ao se deparar com um espaço onde “não há direito, nenhum direito” – como é solenemente informado por seu carcereiro – ainda é o de um preso político ocasional ao se defrontar (em pé de igualdade?) com o limbo jurídico em que vegetam apagados seus colegas “de direito comum”. Como se sabe, aquela situação se reapresentaria menos Capa_OqueRestade quarenta anos depois. Como a ditadura precisava ocultar a existência de presos políticos, os sobreviventes eram formalmente condenados como assaltantes de banco e, como tal, submetidos ao mesmo vácuo jurídico da ralé carcerária, exilada nesses lugares, por assim dizer, fora da Constituição. Mas já não se tratava mais do mesmo encontro de classe face ao “nenhum direito”, ou desencontro histórico, como sugere o filme de Lúcia Murat, Quase dois irmãos (2005).”

Eleições diretas

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2014.09.26 Diretas Já (3)Os anos 70 e 80 no Brasil foram marcados politicamente pela ascensão de diferentes movimentos sociais, encabeçados por diferentes setores de luta por direitos civis, políticos e trabalhistas. Devido ao caráter violento e opressor que o regime militar cultivou desde o golpe de 1964, estes diferentes movimentos encontraram na insatisfação contra o inimigo (representado pela ditadura militar) os elementos necessários para a unificação política, a auto-identificação e, no ápice da experiência que trataremos neste texto – o movimento popularizado como Diretas Já –, demonstraram sólida coesão de forças, com uma campanha que já havia conformado, inclusive, boa parte dos meios de comunicação, historicamente marcados pelo apoio a ditadura.

2014.09.26 Diretas Já (2)A contradição que se apresenta aqui quando analisamos a aderência de diferentes setores ao movimento das Diretas Já em 1983 e 1984, unindo diversas demandas e pautas em torno de um único movimento, talvez seja parte do processo que constitui os próprios movimentos sociais, possibilitando mudanças de paradigmas. Contradições que podemos constatar inclusive nos movimentos recentes que foram às ruas do Brasil em 2013, com a incoerência, ou ao menos a “elasticidade” que demonstraram os meios de comunicação, modificando rapidamente suas opiniões veiculadas, na tentativa de manterem seu status determinante de opinião de massa e de reprodução de discursos.

2014.09.26 Diretas JáSobre as demandas que fortaleceram a união do movimento das Diretas Já, temos aquelas que já existiam desde o momento anterior ao golpe militar, e novas demandas produzidas pela conjuntura política do momento. De qualquer forma, o contexto de insatisfação política, com toda a efervescência social da população, foi que possibilitou que as demandas convergissem e fossem representadas pela mudança de sistema eleitoral, que aumentaria a participação da população neste processo político. Nesta pauta eram depositadas todas as esperanças, e a partir dela, construía-se a possibilidade de transformação social, com maior participação dos brasileiros. Na linha de frente do movimento estavam lideranças políticas do PMDB, do PDT e do PT, que formavam a oposição partidária ao regime militar, já dentro de um sistema pluripartidário, adotado novamente em 1980, após 12 anos de bipartidarismo imposto pelo regime ditatorial.

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