Nos anos 70, durante a ditadura militar, presos políticos e presos comuns acusados de assalto a banco estavam submetidos à Lei de Segurança Nacional. Cumpriam pena nas mesmas prisões.
Este filme se inspira no encontro destes dois mundos.”

Com este parágrafo inicia o filme Quase Dois Irmãos (2005), de Lúcia Murat, mostrando como se encontram e se relacionam duas trajetórias bastante distintas, tendo como pano de fundo o contexto político brasileiro desde os anos 50. Este filme é muito interessante pois nos ajuda a compreender como as instituições estatais mantiveram seu caráter “contrarrevolucionário”, reproduzindo, ainda hoje, aspectos de uma organização baseada na repressão, na violência, na intolerância e no medo. Se a abertura do sistema político, de uma ditadura militar à democracia que vivemos hoje, foi possível de forma “lenta, gradual e segura”, foi para que muitas coisas se mantivessem intactas, sendo consideradas ainda hoje, infelizmente, como necessárias e imutáveis. Um bom exemplo deste processo está no funcionamento das forças policiais e no sistema carcerário do Brasil.

Para alimentar a reflexão, sugerimos que assistam ao filme:

Além do filme, sugerimos também a leitura do livro “O que resta da ditadura: a exceção brasileira” de Edson Teles e Vladimir Safatle (Clique aqui), do qual apresentamos o trecho a seguir:

Até mesmo as cadeias em que se apodrecia até a morte – como a colônia correcional de Ilha Grande, que foi apresentada a um Graciliano Ramos atônito como um lugar no qual se ingressa, não para ser corrigido, mas para morrer – tampouco anunciam uma “Casa da Morte”, como a de Petrópolis e similares espalhadas pelo país e pelo Cone Sul. Basta o enunciado macabro das analogias para se ter a visão histórica direta da abissal diferença de época. O calafrio de Graciliano, ao se deparar com um espaço onde “não há direito, nenhum direito” – como é solenemente informado por seu carcereiro – ainda é o de um preso político ocasional ao se defrontar (em pé de igualdade?) com o limbo jurídico em que vegetam apagados seus colegas “de direito comum”. Como se sabe, aquela situação se reapresentaria menos Capa_OqueRestade quarenta anos depois. Como a ditadura precisava ocultar a existência de presos políticos, os sobreviventes eram formalmente condenados como assaltantes de banco e, como tal, submetidos ao mesmo vácuo jurídico da ralé carcerária, exilada nesses lugares, por assim dizer, fora da Constituição. Mas já não se tratava mais do mesmo encontro de classe face ao “nenhum direito”, ou desencontro histórico, como sugere o filme de Lúcia Murat, Quase dois irmãos (2005).”

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