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Espaços de Memória na América Latina

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Compartilhamos, além de reflexões acerca do papel que a identificação e a ressignificação de espaços nos quais ocorreram violações dos Direitos Humanos desempenham na construção da democracia, o Projeto construído na cidade de Porto Alegre que prevê a construção do Memorial Ico Lisboa. Por enquanto, esse lugar de memória, além de residir em algumas memórias, encontra-se nas páginas de projeto que aguarda ser executado – todos torcemos para que seja em breve!!!!

Achamos importante, no entanto, compartilhar projetos que já foram executados em outros lugares, para que vocês visualizem aquilo que chamamos de ressignificação de espaços. Para tanto, selecionamos três pequenos vídeos que nos apresentam três espaços importantíssimos de memória por excelência, para utilizar uma expressão cunhada pelos setores que se mobilizam em torno dessa pauta. O primeiro é o Memorial da Resistência de São Paulo, o segundo é o Archivo Provincial de la Memoria de Cordoba e o terceiro é o Museo de la Memoria e de los Derechos Humanos.

O Memorial da Resistência de São paulo fica localizado no prédio da Pinacoteca na cidade de São Paulo. Trata-se de um museu histórico instalado no prédio do antigo Deops/SP, dedicado à pesquisa e salvaguarda das memórias de repressão e resistência do Brasil.

O Archivo Provincial de la memoria de Cordoba fica localizado na cidade de Córdoba na Argentina e ocupa o espaço onde funcionou o Departamento de Inteligência da Polícia da Província de Córdoba e um centro clandestino de detenção durante a ditadura-civil militar argentina.

O Museo de la Memoria e de los Derechos Humanos fica localizado na capital do Chile, cidade de Santiago, é um espaço destinado à visibilização das violações dos Direitos Humanos cometidas pelo Estado do Chile entre os anos de 1973 e 1990 e ao estimulo de reflexões e debates acerca do período e da imporância do respeito e da tolerância para que tais fatos nunca mais aconteçam.

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Permanências – O que resta da Ditadura

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Nos anos 70, durante a ditadura militar, presos políticos e presos comuns acusados de assalto a banco estavam submetidos à Lei de Segurança Nacional. Cumpriam pena nas mesmas prisões.
Este filme se inspira no encontro destes dois mundos.”

Com este parágrafo inicia o filme Quase Dois Irmãos (2005), de Lúcia Murat, mostrando como se encontram e se relacionam duas trajetórias bastante distintas, tendo como pano de fundo o contexto político brasileiro desde os anos 50. Este filme é muito interessante pois nos ajuda a compreender como as instituições estatais mantiveram seu caráter “contrarrevolucionário”, reproduzindo, ainda hoje, aspectos de uma organização baseada na repressão, na violência, na intolerância e no medo. Se a abertura do sistema político, de uma ditadura militar à democracia que vivemos hoje, foi possível de forma “lenta, gradual e segura”, foi para que muitas coisas se mantivessem intactas, sendo consideradas ainda hoje, infelizmente, como necessárias e imutáveis. Um bom exemplo deste processo está no funcionamento das forças policiais e no sistema carcerário do Brasil.

Para alimentar a reflexão, sugerimos que assistam ao filme:

Além do filme, sugerimos também a leitura do livro “O que resta da ditadura: a exceção brasileira” de Edson Teles e Vladimir Safatle (Clique aqui), do qual apresentamos o trecho a seguir:

Até mesmo as cadeias em que se apodrecia até a morte – como a colônia correcional de Ilha Grande, que foi apresentada a um Graciliano Ramos atônito como um lugar no qual se ingressa, não para ser corrigido, mas para morrer – tampouco anunciam uma “Casa da Morte”, como a de Petrópolis e similares espalhadas pelo país e pelo Cone Sul. Basta o enunciado macabro das analogias para se ter a visão histórica direta da abissal diferença de época. O calafrio de Graciliano, ao se deparar com um espaço onde “não há direito, nenhum direito” – como é solenemente informado por seu carcereiro – ainda é o de um preso político ocasional ao se defrontar (em pé de igualdade?) com o limbo jurídico em que vegetam apagados seus colegas “de direito comum”. Como se sabe, aquela situação se reapresentaria menos Capa_OqueRestade quarenta anos depois. Como a ditadura precisava ocultar a existência de presos políticos, os sobreviventes eram formalmente condenados como assaltantes de banco e, como tal, submetidos ao mesmo vácuo jurídico da ralé carcerária, exilada nesses lugares, por assim dizer, fora da Constituição. Mas já não se tratava mais do mesmo encontro de classe face ao “nenhum direito”, ou desencontro histórico, como sugere o filme de Lúcia Murat, Quase dois irmãos (2005).”

Relatos dos horrores.

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Depoimento de Frei Tito.

Depoimento de Frei Tito.

O “Relato de uma tortura” é um documentário, rodado no Chile, que mostra o Grupo de presos políticos brasileiros libertados com o sequestro do embaixador suiço Giovanni Bucher. São os exilados que sobreviveram a tortura cometida pela Estado durante a ditadura militar no Brasil, instituída em 1964.

Mulher conta os horrores vividos na tortura.

Mulher conta os horrores vividos na tortura.

O vídeo que intercala diálogos em espanhol, portunhol e português, mostrando o diálogo dos repórteres estrangeiros com os brasileiros. Traz ainda relatos de situações inusitadas como uma cena em que algumas pessoas foram imobilizadas nuas com um jacaré andando por seus corpos. Outro ponto é que as pessoas que tinham marido/esposa ou filhos pequenos, eram torturados na presença dos familiares para que delatasse os seus companheiros.

Em 1979, todos foram anistiados (inclusive torturadores). O filme tem fama de ser impactante e forte, pois resgata as histórias e memórias de um período de sombras do País.

Marcas do terror da Ditadura

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     Toda ditadura é marcada pela imposição dos interesses de uma minoria para a maioria da sociedade. Fecham-se ou estreitam-se os espaços de participação na vida política, que passa a ser ocupada quase que exclusivamente por aqueles que detém maior poder. Poder que é determinado, sobretudo, pela força econômica e militar. Dentre outras estratégias para o controle e para a imposição de um projeto de sociedade, destacamos a utilização da violência, numa escala inédita na violenta história brasileira. Durante todos os anos da Ditadura Civil-Militar, a violência foi utilizada para eliminar fisicamente aqueles que se colocavam na oposição ao regime, mas também tinha uma função de causar temor em toda a sociedade. Isto fazia parte da guerra psicológica prevista na Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento, contida nos mais importantes manuais militares da época. Assim, buscava-se provocar o desestímulo à participação na vida pública nacional. Dentro desta perspectiva, tinham especial importância os sequestros e os assassinatos fomentados por interesses políticos, a tortura (mal) dissimulada, as prisões arbitrárias para averiguações, os atentados, as falsas informações e a censura, a repressão a manifestações e greves. Enfim, todos estavam ou sentiam estar próximos das bainotas caladas e do tacão militar.

     Todas as sociedades que passaram por regimes ditatoriais sofrem décadas com as marcas deixadas pelos anos de autoritarismo. Cada um de nós deve perceber que herdamos elementos desse período e que, de alguma forma, fazem parte direta de nossas vidas. Além dessa percepção, devemos retomar a experiência de pessoas que sentiram em suas peles e em seus corações todo a absurda violência praticada pelo Estado. A seguir, indicaremos alguns materiais que nos possibilitam o contato com essas histórias.

Indicamos o documentário 15 Filhos, e, com ele, aproveitamos para divulgar o site em que se encontra, que é um acervo de vídeos sobre o período da Ditadura:
http://www.videotecas.armazemmemoria.com.br/Video.aspx?videoteca=Mg==&v=ODA=

O livro Direito à Memória e à Verdade: histórias de meninas e meninos marcados pela ditadura. A obra nos proporciona depoimentos de diversas vítimas, que eram crianças quanto tiveram que enfrentar situações absurdas:
http://portal.mj.gov.br/sedh/biblioteca/livro_criancas_e_adolescentes/livro_criancas_e_adolescentes_sem_a_marca.pdf

Aproveitamos para indicar a leitura do livro K, de Bernardo Kucinski, que retrata muito do que fora e é enfrentado pelos parentes de pessoas sequestradas e mortas pela Ditadura. O livro não é de fácil acesso, apesar de ter sido rebublicado há pouco tempo, mas vale o esforço por sua procura. Contudo, já que não podemos disponibilizar o livro, indicamos uma entrevista com o autor, que é, além de escritor, jornalista e ex-professor da USP:
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5411&secao=439

A Igreja Católica na resistência

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A Igreja Católica é uma das maios poderosas e influentes instituições brasileiras, de ontem e de hoje. Alguns segmentos da instituição atuaram como força fundamental para a desestabilização do governo João Goulart, utilizando e fomentando a histeria anti-comunista existente para parte da sociedade civil. Não entraremos aqui em detalhes, mas alguns acontecimentos falam por si (dentre tantos outros que poderíamos trazer): as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que levaram multidões às ruas do país (Porto Alegre sediaria uma, mas fora cancelada após vitória golpista); os sermões do padre estadunidense Patrick Peyton, na Cruzada do Rosário em Família, que percorreu em diversas capitais no ano de 1963 (inclusive Porto Alegre); os discursos semanais no rádio de Dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre, no programa “A voz do pastor”. Contudo, a Igreja não é monolítica, pois em sua vasta organização não se consegue impor com facilidade uma forma de pensar e agir. É uma instituição que se expande horizontalmente – acessando os rincões mais distantes do Brasil, assim, podendo ter contado com as mais humildes parcelas da população – mas também se concentra verticalmente – acessando com isso os centros de poder econômico e político. Por isso, podemos afirmar que a Igreja não estava totalmente unida na implementação do Golpe, existindo desde o início setores da oposição, estando ligados aos movimentos populares, que apresentavam uma postura progressista em sua atuação política. Estes religiosos foram muito atuantes, por isso recebendo grande atenção do aparato repressivo do Estado brasileiro. Indicamos o filme de Helvécio Ratton, homônimo ao livro de Frei Betto, O Batismo de Sangue. Expressa parte da experiência de alguns frades dominicanos no final da década de 60, quando a violência e o controle espreitavam a cada esquina.

A ampla utilização da tortura passou a não ter mais condições para ser negada, principalmente após a implementação do Ato Institucional nº 5. A violência passou a atingir toda a sociedade, não mais sendo exclusividade da grande massa de pobres. Além disso, a louvação da “revolução que salvava o Brasil do comunismo” passou a deixar de ter tanto sentido, na medida que se implementou uma ditadura que estava durando muito mais do que haviam esperado. Assim, mudam de posicionamento antigos entusiastas do golpe ou passam a tomar um posicionamento crítico, assumindo um lugar na oposição. A Igreja Católica, mesmo em sua alta hierarquia, passa a questionar a ditadura, assim como outros importantes órgãos da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O trabalho realizado por esses órgãos foi de grande importância para o fim da ditadura. Tomemos como exemplo o projeto Brasil nunca Mais, organizado pela Arquidiocese de São Paulo e pelo Conselho Mundial de Igrejas no final dos anos 80. Apresentava três objetivos fundamentais: “evitar que os processos judiciais por crimes políticos fossem destruídos com o fim da ditadura militar, […] obter informações sobre torturas praticadas pela repressão política e que sua divulgação cumprisse um papel educativo junto à sociedade brasileira”. O livro publicado, com o mesmo nome do projeto, foi recebido com grande repercussão interna e estrangeira, devido sua qualidade investigativa e pelo reconhecimento da instituição que o produziu. Podemos encontrar o livro, além de outras informações, no site http://bnmdigital.mpf.mp.br/#!/.

Documentário “(A.H.F) Condor”

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Conforme pode ser melhor compreendido na postagem a seguir, a “Operação Condor” foi uma conexão repressiva articulada nos anos 70 entre as ditaduras do Cone Sul com apoio da CIA, apoio que podia ser policial, militar, estratégico, econômico.

No documentário “Condor” Roberto Mader conta essa história através de depoimentos de generais, ativistas políticos, torturadores, vítimas e parentes dos desaparecidos. Condor foi filmado em quatro países e traz rico material de arquivo, acompanhado de belas composições de Victor Biglione. Vencedor dos prêmios de Melhor Documentário no Festival do Rio e Prêmio Especial do Júri em Gramado em 2007. Assista!

Indicação de filme – Estado de Sítio (Costa-Gavras, 1972)

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O cineasta grego, naturalizado francês, Constantin Costa-Gavras se notabilizou pela perspectiva crítica como constrói seus filmes. Em muitos destes, volta-se à exposição de algumas experiências vividas no interior de regimes de cunho autoritário. Em 1972 grava o longa Estado de Sítio (État de siège) no Chile, pois fora proibido de o fazer no país onde os acontecimentos retratados realmente se passaram: o Uruguai. Este país progressivamente se aproximava do momento de ruptura de sua Constituição, baixo o tacão militar e os desmandos das elites nacionais e estrangeiras, o que ocorreu em junho de 1973. O filme retrata a trama que permeia o sequestro do embaixador brasileiro no Uruguai e do agente estadunidense Dan Mitrione, pelo Movimento de Libertação Nacinoal – Tupamaros.

Os sequestros ocorreram em 1970, como uma forma de pressionar o governo de Juan Maria Bordaberry, que apresentava íntima ligação com as Forças Armadas e subserviência aos interesses da elite uruguaia e estrangeira, o que tornava o sistema democrático muito restrito, quase apenas como uma faixada. Assim reprimia violentamente a oposição ao seu governo, que se encontrava, sobretudo entre os estudantes e sindicalistas. Os Tupamaros tomam a luta armada, através da guerrilha urbana, como uma forma de resistir ao arbítrio e de denunciar os caminhos a que seguia o país. Os sequestros de figuras de destaque ligadas ao governo podem ser compreendidos neste contexto. O embaixador brasileiro e Dan Mitrione são personagens representativos da influência estrangeira na política interna uruguaia, respectivamente do Brasil e dos Estados Unidos, que foram importantes promotores dos golpes de Estado que ocorrem na América do Sul.

Indicamos o filme por sua qualidade em expressar questões extremamente pertinentes para compreendermos as relações golpistas e repressivas que existiam entre os países. Porém, também, por trazer o drama daqueles jovens tupamaros que (como tantos outros, de diversas nacionalidades) doaram suas forças e seus mais belos sonhos para a construção de uma sociedade mais justa, mesmo que enfrentando uma impiedosa máquina de repressão e controle, que se articulava além das fronteiras (sob as asas do Condor ou não).

Vale a indicação de algumas leituras que podem contribuir para a compreensão desse processo: PADRÓS, Enrique. A ditadura civil-militar uruguaia: doutrina e segurança nacional.

PADRÓS, E; FERNANDES, Ananda. A gestação do golpe no Uruguai: o governo Bordaberry e o papel dos militares (1972-1973) .

 

 

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