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Há 50 anos do golpe: tempo de reflexões, produção intelectual e debates políticos.

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Tomando emprestada a categoria de Eric Hobsbawm, ainda que esta tenha sido forjada para falar do século XX, podemos afirmar que o blog Resistência em Arquivo nasceu de “tempos interessantes”: ele foi fruto do contexto que marcou os 50 anos do golpe civil militar de 1964 no Brasil, nasceu das inquietações que acompanharam historiadores, arquivistas, cientistas sociais, políticos, estudantes e diversos setores da sociedade que buscaram problematizar o evento histórico em seu tempo, assim como as marcas por ele deixadas, e o necessário aprofundamento da investigação científica em torno da questão.

Nosso blog, um dos eixos do Projeto Resistência em Arquivo, surgiu para difundir o tema e contribuir com a discussão, ao lado da construção do catálogo seletivo e da oficina que dão acesso e difundem o acervo da Comissão Especial de Indenização aos ex-presos político no Rio Grande do Sul, salvaguardado pelo APERS. O blog é contemporâneo aos trabalhos das Comissões Estadual e Nacional da Verdade, que já foram tema de postagens aqui, assim como de múltiplos eventos organizados ao longo desse ano, com diversos enfoques. Universidades, instituições de memória, escolas, comissões estatais, comitês da sociedade civil, todos envolvidos em promover reflexões sobre o golpe de 1964 e seus desdobramentos, sobre a atuação dos militares e a participação civil, sobre a Lei de Anistia, sua atualidade, interpretações e os entraves que causa à justiça, sobre mortos, desaparecidos e a luta de seus familiares por memória, verdade e justiça, sobre o ensino a cerca desse processo, sobre o uso de testemunhos, os impactos psicológicos do golpe, da tortura e da política do medo instaurada pelo regime, que atingem tanto indivíduos quanto a sociedade como um todo, sobre a resistência à ditadura e a luta por democracia e direitos humanos, e sobre a história dos 21 anos de ditadura no Brasil. Ao longo do Projeto tentamos refletir tudo isso aqui, ainda que de forma modesta.

E por que retomar isso agora? Bem, 2014 aproxima-se do fim marcado por embates políticos, numa situação polarizada em que conceitos como ditadura e democracia estão na ordem do dia. Essa polarização se expressa nas ruas com “cartazes” que pedem, por um lado, punição aos torturadores da ditadura, justiça para o ontem e o hoje, mais direitos e aprofundamento dos mecanismos de participação popular; por outro, a manutenção do status quo e de uma organização social embasada em privilégios e na meritocracia, que se exacerba com setores minoritários que chegam a pedir por “intervenção militar”.

Podemos afirmar que um dos fatores que contribuiu para que tais embates tenham se evidenciado foi o enfrentamento feito em prol de memória e verdade no último período. Acreditamos, entretanto, que em um contexto como esse se torna mais e mais necessário o estudo e o amplo acesso a informações sobre os 21 anos de ditadura, para que a sociedade possa negar o caminho autoritário e reacionário como uma via para dar respostas à pobreza, à precariedade de alguns serviços públicos ou à corrupção. É preciso que debates como os que foram travados ao longo de todo o ano de 2014, em função dos 50 anos do golpe, prossigam e alcancem setores mais amplos, contribuindo para desmontar argumentos como “no tempo da ditadura não havia roubalheira”, ou “naquela época não havia insegurança nas ruas”. Será que não havia corrupção, ou o sistema autoritário e censor garantia que os casos não fossem descobertos? Até que ponto a sensação de segurança era real, ou estava diretamente relacionada a ausência de liberdade e ao medo velado? Com que preço nós ou a geração de nossos pais pagou por essa “segurança”?

Nesse sentido, divulgamos o dossiê 50 anos do golpe de 1964, elaborado pelo historiador Demian Bezerra de Melo e disponibilizado através do blog marxismo21, em uma tentativa de mostrar a diversidade de produções nessa área e de incentivar que as reflexões e os debates sigam para muito além desse ano que marcou o 50º aniversário do golpe, ou em que as Comissões da Verdade entregarão seus relatórios finais. A compilação expressa no dossiê traz o link para uma infinidade de “trabalhos acadêmicos, artigos, uma lista de filmes e vídeos, portais, dicas de eventos acadêmicos, exposições e outros materiais importantes para um aprofundamento da reflexão crítica sobre os 50 anos do golpe de 1964.” Abrindo espaço para polêmicas historiográficas e registrando contribuições clássicas e recentes, certamente é um excelente “pontapé inicial” para todas e todos que desejaram entrar em contato com a efusiva produção do último período acerca do golpe e da ditadura de 1964. Boa leitura!

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As descomemorações e as rememorações do Golpe e da Ditadura Civil Militar – 50 anos depois!!!

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Estamos chegando perto do dia em que completarão 50 anos do Golpe que levou a cabo uma Ditadura Civil Militar no Brasil. Muitas entidades, movimentos sociais e órgãos do governo planejaram para essa data eventos de rememoração e de análise dos acontecimentos ligados ao Golpe, à Ditadura e à Democracia. Divulgaremos algumas por aqui. Confira as programações e participe!

As mídias, as marcas, os arquivos: 50 anos do golpe de 1964

Na semana que marca os 50 anos do golpe civil-militar pelo qual passou o Brasil, a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) realiza evento entre os dias 1º e 4 de abril. As palestras recebem convidados locais, nacionais e internacionais em temáticas das áreas dos cursos da Faculdade: arquivologia, museologia, biblioteconomia e comunicação social. A entrada é gratuita.

Evento FABICO

Semana da Democracia – Democracia, que nunca mais desapareça.

O Memorial do Rio Grande do Sul e o Museu dos Direitos Humanos do Mercosul, promovem atividades entre os dias 01 e 05 de abril de 2014 nas suas sedes, localizadas na Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre.

Semana da Democracia - Parte 1

Fórum da Democracia

Organizado por várias entidades e movimentos sociais, desde o dia 14 de março, acontece o Fórum da Democracia – Descomemoração dos 50 anos do Golpe, que divulgou atividades até o dia 30 de abril desse ano. São atividades organizadas pelo Fórum e atividades organizadas por outras entidades e movimentos que estão também sendo divulgadas pelo Fórum. Elas ocorrerão em espaços múltiplos, tanto na cidade de Porto Alegre, quanto no interior do estado.


Fórum da Democracia RS - Parte 1 As descomemorações e as rememorações do Golpe e da Ditadura Civil Militar – 50 anos depois!!!

50 anos do Golpe de 64. Impactos, (des)caminhos, processos

O evento “50 anos do Golpe de 64. Impactos, (des)caminhos, processos” visa promover debates transdisciplinares sobre o golpe civil-militar perpetrado contra o estado democrático brasileiro, compreendendo relevantes aspectos do contexto histórico que levaram ao golpe, bem como seus impactos no Brasil e no cenário latino-americano, contribuindo para que a comunidade acadêmica e a sociedade em geral possam refletir sobre a construção sócio-histórica do país. Nessa perspectiva, torna-se relevante compreender que o golpe civil-militar de 1964 não foi levado a cabo apenas por forças militares. Para mais informações, clique aqui.

50 anos do Golpe UNISINOS

 

Ato Homenagem: 50 anos do Golpe de 1964, 50 anos de Impunidade

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O Arquivo Público do Rio Grande do Sul divulga e convida a todos para participarem do Ato Homenagem que ocorrerá no Salão de Atos da Universidade federal do Rio Grande do Sul na noite do dia 31 de março, às 18 horas.

2014.03.21 Ato Homenagem UFRGS

Segundo a organização do evento “a presente atividade está relacionada com outras que ocorrerão em todo o país, de resgate da memória e da história dos acontecimentos que levaram ao Golpe de Estado que interrompeu um governo constitucional e impôs uma ditadura que durou 21 anos.” Ainda conforme o grupo que constrói a atividade, é “em nome da reafirmação da Democracia, da liberdade no seu sentido mais amplo, do pensamento crítico e da autonomia da produção do conhecimento científico, que homenageamos um conjunto de cidadãos reconhecidos por suas trajetórias de luta e denúncia contra toda forma de arbítrio promovida pela Ditadura de Segurança Nacional e suas seqüelas persistentes. Através deles homenageamos milhares de cidadãos que, de uma forma ou outra, procuraram enfrentar realidade tão adversa, bem como o vasto universo social das vítimas diretas e indiretas”.

 Você pode convidar amigos e registrar sua presença no convite disponibilizado na categoria Eventos do Facebook – Ato Homenagem. De qualquer forma, registramos que não é necessário realizar inscrição para participar dessa homenagem: é só chegar!!!

Golpe de 1964: lá se vão 50 anos!

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2014. Ano dos 50 anos do golpe civil-militar de 1964. No final deste mês muitas pessoas, organizações, estudantes, educadores, instituições, estarão rememorando e (des)comemorando uma data sombria, que marcou o início do período de 21 anos de ditadura em nosso país. Com certeza precisamos debater muito o tema, para informar e formar tanto aqueles que cresceram durante a ditadura e por ela foram “moldados” através das escolas, da mídia, da repressão, das propagandas institucionais e de políticas psicossociais que objetivavam paralisar e amedrontar nossa sociedade, quanto os mais jovens, que são filhos de uma geração amordaçada, que nasceram e viveram em meio às mensagens individualistas do neoliberalismo, e que muito pouco ou quase nada ouviram falar de golpe, ditadura, censura, mortos ou desaparecimentos, afinal, em nossa transição política optou-se por calar.

MIlitares nas ruasA partir das discussões que temos feito em nossas postagens, você deve ter acompanhado que o golpe enquanto fato histórico não representa uma momento isolado na trajetória brasileira. O golpe não ocorreu apenas pelo interesse dos militares – isolados do restante da sociedade – em ocupar o poder e combater o “perigo comunista”, assim como eles não foram conduzidos ao poder nos braços da maioria do povo, como algumas vezes os setores militares reacionários querem fazer parecer. O golpe no Brasil estava conectado com a realidade da Guerra Fria, com a busca de hegemonia na América Latina por parte do Estados Unidos, que comandava o bloco capitalista, e com os interesses da elite econômica e política do Brasil, que pretendia frear o processo de organização crescente dos trabalhadores no campo e nas cidades, que desde o começo dos anos de 1960 lutavam mais e mais por seus direitos e por uma sociedade mais equânime. Neste sentido, certamente os militares foram apoiados por parte do empresariado, da imprensa, da classe média, por latifundiários e de setores conservadores da Igreja.

GOLPE Ultima HoraPara compreender melhor os fatos transcorridos entre a madrugada de 31 de março de 1964 – quando militares marcharam em Minas Gerais e no Rio de Janeiro contra o governo de Jango – e os meses que se passaram logo após o golpe, com repressão e combate ao “inimigo interno” comunista, intervenções no parlamento, em sindicatos, partidos políticos, organizações estudantis, e com a invenção de um arcabouço legal imposto pelos militares para prestar-lhes falsa legitimidade no poder, gostaríamos de indicar a leitura do texto “O golpe de 1964 e a instauraçao do regime militar“, do site do CPDOC /Fundação Getúlio Vargas.

Com o objetivo de elucidar melhor o contexto de golpe e o interesse dos Estados Unidos na questão, gostaríamos de destacar também a existência de gravações feitaspor escutas instaladas na Casa Branca pelo próprio presidente John Kennedy, que comprovam que EUA planejavam uma intervenção militar no Brasil. Essas gravações foram liberadas pela John F. Kennedy Presidential Library, e agora podem ser amplamente acessadas através do site de Elio Gaspari, no qual o jornalista disponibiliza um acervo com cerca de 15 mil documentos que serviram de base para a edição e a reedição de seus livros sobre a ditadura militar no Brasil.

Jango e Kennedy

João Goulart e John Kennedy

Em 07 de outubro de 1963 Kennedy se reunia com Lincon Gordon na Casa Branca para tratar da “ameaça comunista” no Vietnã e nos países da América. Gordon exerceu a função de embaixador dos Estados Unidos no Brasil de 1961 a 1966, articulando forte oposição ao presidente João Goulart. Kennedy temia que as Reformas de Base defendidas pelo governo Jango fossem implementadas, aumentando a base esquerdista do governo e aprofundando as lutas sociais no país, que poderiam conduzir a uma saída socialista. Nesse dia, o embaixador já afirmava a Kennedy que o golpe militar poderia ser uma opção para resolver a crise política brasileira, com o que o presidente concordava. Para acessar a gravação, clique aqui.

O dia que durou 21 anosO documentário “O dia que durou 21 anos”, de Camilo Tavares e Flávio Tavares lançado em 2013, também é uma excelente fonte de informações a respeito do golpe de 1964 e seu contexto. Produzido com documentos secretos e gravações originais da época, mostra a relação dos EUA com o golpe, sua articulação em apoio aos militares brasileiros, e fornece um rico panorama desde a crise política estabelecida com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, até o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969, cinco anos após o golpe. Vale a pena conferir!

Nas próximas semanas muitas atividades serão realizadas em todo o Brasil relacionadas aos aniversário de 50 anos do golpe e suas consequências. Seguiremos discutindo sobre a temática e, na medida do possível, divulgando conteúdos e oportunidades de debates. Acreditamos que somente assim – com muita troca de informações e reflexão crítica – conseguiremos dar fim a muitas heranças da ditadura em nosso país, como o entulho autoritário e à defasagem na educação, na participação política e no exercício da cidadania.

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