Rede de amigos torturadores.

Rede de amigos torturadores.

Por conta de sua localização geográfica o Rio Grande do Sul foi um local chave para a atuação da repressão e para o trânsito de militantes perseguidos. Na semana passada pudemos ter contato com a história de Frei Beto, da perseguição ao exílio. Esta semana você poderá conhecer a história de Claudio Gutierrez e um pouco mais sobre as “Conexões Repressivas” que com o golpe se estabeleceram entre os países do Cone Sul.

O Governo que foi implantado na Ditadura estabeleceu estreitas relações com setores conservadores dos Estados Unidos. O interesse estadunidense na América era manter os governos alinhados com a proposta de “livre mercado” e de economia de capital aberto além de “limpar” o país da ameaça comunista. Essa intervenção na economia, na política através de forças policiais ou repressão clandestina ficou conhecida como “Operação Condor”. Os Estados Unidos tem evitado tornar público os documentos sobre ações repressivas conjuntas entre a Casa Branca o Itamarati e outros grupos da América Latina.

O Centro de Informações do Exterior (CIEX) foi um dos principais órgãos ligados ao Itamarati que operou entre 1966 e 1985 com o fim de monitorar os opositores do regime militar até mesmo fora do país. O criador deste órgão Pio Correa, conhecido pelos militantes exilados como “troglodita reacionário”, já atuava como chefe do Departamento Político do Itamaraty desde 1959. Com o golpe de 1964 Pio Correa foi nomeado pelo General (presidente) Castelo Branco como embaixador do Brasil em Montevidéu, capital do Uruguai, garantindo assim o braço repressivo do Brasil naquele país. O diplomata juntamente ao aparelho de informações e repressão passa a articular uma rede de contatos que incluía políticos, militares, juízes, delegados de polícia, fazendeiros e até comerciantes. Os contatos foram travados em seguidas viagens pelo país, e o Uruguai acabou servindo de experiência piloto para a criação do Ciex. Pio Correa é tido ainda como informante da CIA no território da America do Sul.

Pio Corrêa - Cabeça da repressão internacional "O troglodita Reacionário"

Pio Corrêa – Cabeça da repressão internacional “O troglodita Reacionário”

Inicialmente o Ciex atuava de forma clandestina ou informal, posteriormente com o fortalecimento de relações entre a política e a polícia o centro de informações da diplomacia passa a funcionar como um órgão oficial do Estado. O Ciex ajudou a localizar, identificar e capturar pessoas no estrangeiro e no Brasil. O amplo registro das atividades políticas desses asilados municiou as demais agências da repressão com dados para as sessões de interrogatórios, reconhecidamente marcadas por torturas. Dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime, descobriu-se 64 deles no arquivo secreto do Ciex.

Como vimos na postagem anterior sobre Claudio Gutierrez [http://arquivopublicors.wordpress.com/2014/07/16/apers-conta-historias-o-que-tem-claudio-gutierrez-a-nos-contar/] a repressão se instala a partir do estreitamento das relações políticas e policiais entre o Brasil e o Uruguai. Neste ponto os delegados e oficiais de polícia do Rio Grande do Sul foram a principal influência já que o estado faz parte de um sistema de tríplice fronteira, Uruguai, Argentina e Brasil.

Niemeyer retrata repressão na America Latina em monumento

Niemeyer retrata repressão na America Latina em monumento

Procurando concluir o texto trazemos a afirmação de uma Jornalista Chilena, que através da analise de documentos chilenos e brasileiros, também com a ajuda da Comissão da Verdade do Brasil fica evidente que a repressão agiu, procurando perseguir e executar as oposições dentro de outros países. Segundo Mónica Gonzalez, autora do livro La Conjura – Os Mil e Um Dias do Golpe: “O Brasil […] desempenhou um papel central na gestação dos golpes militares na região, com […] financiamento externo para a desestabilização e, em seguida, para o treinamento dos serviços secretos dos países do Plano Condor, em solo brasileiro”

A Operação Condor se oficializa, em uma reunião convocada por Augusto Pinochet (arquiteto do golpe de estado Chileno) em parceria com o representante do Itamaraty e da CIA Pio Correa, é realizada em Santiago, entre novembro e dezembro de 1975. Nessa reunião, estavam presentes representantes dos governos da Bolívia, Paraguai, Chile, Uruguai e Brasil. Essa união desencadeou a repressão conjunta, trazendo uma profunda marca para a América Latina que teve essa tão violenta intervenção na política.

“Não se sabe o que aconteceu exatamente com a estrutura da Operação Condor após o fim dos regimes militares. Os brasileiros eram mestres em não deixar digitais. Sabe-se que o aparato de informações da Operação Condor continua existindo; isto está numa ata de uma das últimas reuniões dos exércitos americanos, ocorrida em Mar del Plata” Afirma o veterano na luta contra o terrorismo de Estado na América do Sul, Jair Lima Krischke que atualmente preside o Movimento de Justiça e Diretos Humanos (MJDH) sediado em Porto Alegre.

Saiba Mais:

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